quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Enzo Peres e o meio campo do Benfica

Face à saída de última hora de Witsel o Benfica ficou com um problema no meio campo.

Como todos se recordam, no primeiro ano de Jesus no Benfica, Javi Garcia assumia sozinho o lugar mais recuado do meio campo (à frente tinha Aimar) mas a versatilidade e a tremenda capacidade física de Ramirez davam à equipa um equilíbrio defensivo que se perdeu no ano seguinte. Foi o tal ano catastrófico em que a equipa parecia bipolar. Apanhado em contrapé, o Benfica expunha-se tremendamente - e consequentemente sofremos um número anormal de golos nessa época, perdendo ingloriamente vários troféus (nomeadamente não estando, pelo menos, nas finais da Liga Europa e da Taça de Portugal).

Na terceira época de Jesus, foi contratado Witsel. Inicialmente pensando-se tratar-se de um substituto para Aimar (que foi nalguma medida), Witsel veio sobretudo dar outro desenho ao nosso meio campo. Jogava tanto ao lado como à frente de Javi, permitindo outros equilíbrios, outra gestão da posse de bola e outra segurança defensiva.

Este ano perdemos Witsel (e Javi) pelo que a forma de jogar terá que ser outra.

Nesta medida, há soluções que se podem utilizar para jogar à frente de Matic. Desde logo Carlos Martins: quando em boa forma física penso que poderá ser titular muitas vezes. Mas também há Bruno César, que pode jogar no meio, com características diferentes de Aimar. E, além deste último (que jogará sobretudo num esquema de apoio a um único ponta de lança ou como 10, sozinho à frente de Matic, em jogos "fáceis" em casa), há ainda Enzo Peres.

O jogo de ontem de Enzo agradou-me, tal como já tinha gostado da sua exibição em Setúbal, numa posição diferente, na ala mas derivando também para o meio, onde se sente muito bem.

Enzo tem características diferentes dos nossos restantes jogadores pois gosta de ter a bola, que trata muito bem. É um futebolista maduro, que tem noção o que fazer à bola, no que recorda Witsel. Não tem a mesma capacidade defensiva deste último mas tem uma maior intencionalidade atacante. Enzo tem ainda polivalência, pois além da ala e da posição 8, como agora se diz, pode ainda jogar mais à frente, como 10, na posição de Aimar. Conheço aliás quem defenda que esse será o seu lugar mais natural no futuro.

A sua boa exibição no exigente jogo de ontem, de que o momento alto foi o passe soberbo a isolar Rodrigo, é mais um aspecto positivo que retiro do jogo de ontem.

Início positivo

Face a tantas mexidas em tão poucos dias era difícil pedir mais à equipa.
O Benfica foi irrepreesível na defesa, face a um adversário muito poderoso fisicamente que tentou intimidar a nossa equipa (com o árbitro a deixar jogar, como eu aliás defendo que deve ser), nos pressionou muito e que constantemente tentou chegar de forna directa à nossa baliza, ora com cruzamentos ora com passes em profundidade.

É verdade que poderíamos ter ganho, arriscando um pouco mais.
A equipa teve uma ótima prestação defesiva mas foi curta no ataque. Aimar não esteve, a meu ver, bem e Rodrigo consequentemente esteve muito desapoiado. O próprio Matic foi por vezes lento a fazer o primeiro passe (e perdeu ou ia perdendo algumas bolas na primeira parte) e isso condicionou logo à partida a qualidade da nossa posse de bola e consequentemente das jogadas atacantes do Benfica. Sálvio teve boas iniciativas (nomeadamente a que deu o amarelo ao defesa esquerdo do Celtic) mas nem sempre foi suficiente rápido ou expedito a perceber o que fazer com a bola. O problema era que havia pouca gente no ataque, uma vez que todos estavam preocupados (e com razão) em tapar os caminhos e apoiar os colegas que não têm jogado. Diga-se a este propósito que Matic, apesar das críticas que já faz, melhorou na segunda parte, André Almeida foi uma boa surpresa mas sobretudo que Jardel foi enorme. Garay, já fora do lote de "suplentes", fez também uma ótima exibição, com antecipações constantes e capacidade para avançar com a bola até ao meio campo adversário e Melgarejo esteve bem, sempre seguro.

Para mim o melhor do Benfica foi Gaitan. Foi o jogador que mais foi capaz de desequilibrar, que teve arranques impressionantes (quando metia a 5ª parecia imparável) e que quase sozinho foi capaz de fazer estragos na defesa do Celtic. Não fez tudo bem, como é evidente, mas foi aquele que mais pareceu capaz de nos dar a vitória e que esteve envolvido em alguns dos principais lances de perigo da segunda parte.

Num campo onde tínhamos 3 derrotas (todos os jogos ali disputados) conseguimos um ponto. Face às ausências, penso que temos que considerar este resultado positivo. Podíamos ter arriscado mais e ter ganho - mas também nos expunhamos mais a perder. Não concordo com as opiniões de quem diz que Spartak ali ganhará com naturalidade. Penso até que poderá acontecer o contrário: com Samaras e com a tradicional permeabilidade defensiva das equipas russas (que ontem em Barcelona não se viu, é verdade, mas que acredito que se refletirá nooutros jogos)  penso que o Celtic poderá ganhar. Aliás é o único jogo que poderá ganhar em casa (e fora ainda mais) e certamente tudo fará para dar essa alegria aos seus adeptos.

As contas (admitindo que o Barcelona ganha todos os jogos) são portanto simples: a qualificação decide-se nos jogos com o Spartak de Moscovo.

Por fim, quanto à arbitragem, pareceu-me que deixou jogar e permitiu uma grande dose de contacto físico, o que à partida se enquadra melhor no jogo dos escoceses. Mas como disse atrás concordo com esse tipo de abordagem ao jogo. Nada é pior do que um jogo constantemente interrompido com faltas e faltinhas, sem ritmo de nenhuma espécie. Os pretensos penalties não o são para mim em nenhum dos casos. No de Rodrigo há um abalroar do nosso jogador pelo guarda-redes mas já depois do remate de Rodrigo e do próprio guarda-redes tocar a bola. No lance de Melgarejo, este não rasteira o avançado do Celtic, pelo contrário encolhe-se para o deixar passar. Dá ideia que ambos se tocam mas muito ligeiramente. Na sequência desse leve contacto o avançado ou tropeça no chão ou se atira deliberadamente para a relva (não consigo determinar qual das duas).

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Em Glasgow

O Benfica nunca ganhou e nunca marcou em casa do Celtic.
Trata-se de um adversário perigoso quando joga em casa, face ao grande ambiente criado pelos seus adeptos e à determinação dos seus jogadores, que compensam algumas carências técnicas com muita vontade, agressividade e futebol direto.

O Benfica tem porém hoje uma boa oportunidade de pela primeira vez alterar este estado de coisas e ganhar o jogo. Se o conseguirmos damos um passo que poderá ser muito importante para a qualificação.

Técnica e tacticamente, o Benfica é superior. Tem melhores jogadores e superior cultura futebolística. Vai jogar com uma equipa muito diferente: não jogam Maxi e Luisão, além obviamente de Javi e Witsel. Nem Carlos Martins poderá dar o seu contributo. No entanto, no Celtic não jogam também Samarras e outro avançado habitualmente titular. Por outro lado, o futebol irlandês vive um momento difícil (o grande rival do Celtic, o Glasgow, da mesma cidade, desceu para a terceira divisão por falta de liquidez financeira) e o clube católico desinvestiu consideravelmente no futebol. A competitividade do futebol irlandês diminuiu, o que naturalmente não contribui para o poderio do Celtic, que neste momento e com a descida do Glasgow praticamente deixou de ter oposição interna.

Nessa medida, o adversário de hoje está ao nosso alcance. Confio em Jesus para suprir as ausências e apresentar uma equipa competitiva, como confio na capacidade dos jogadores que estarão em campo.

Se jogar Enzo no meio, Sálvio poderá também derivar para o meio nalgumas ocasiões, porque são terrenos em que se movimenta também bem, e dar algum auxílio ao seu compatriota, equilibrando o meio-campo. De Gaitan (que se pensa que voltará à titularidade) espero as suas melhores arrancadas e esticões no jogo que desarticulem a defesa irlandesa. Miguel Vítor é um jogador que dá imensas garantias, um jogador à Benfica, pela sua tremenda raça e constante espírito competitivo. Não será evidentemente um Maxi mas num jogo fora isso poderá também ter algumas vantagens, até porque no ataque não falta velocidade e "poder de fogo".

Vencer hoje traria uma vantagem adicional: mostraria que a equipa era capaz de ultrapassar adversidades e reforçaria o espírito colectivo, imprescindível para ganhar troféus.

Venha então a Champions. E tragam de Glasgow essa vitória que ainda não consta do nosso palmarés.

Conseguiram o que queriam ou a lei de murphy

Desde o primeiro momento que considerei que Luisão tinha arriscado um castigo pesado. Na altura alguma imprensa dizia que esse castigo não era provável, o que era uma boa notícia mas não apagava o erro cometido, aliás totalmente desnecessário.

Simplesmente a chamada lei de Murphy aplica-se ao Benfica como uma certeza matemática.

Porquê? Será um mero acaso?

Eu penso que não.

Ponto prévio: reitero que Luisão, que prezo imenso, que me deu uma alegria gigantesca em 2005 e muitas outras ao longo da sua grande carreira no Benfica, cometeu um erro. Um erro de avaliação: correu extemporaneamente para o árbitro.

Tenho porém a certeza absoluta que a sua intenção não era agredir o árbitro. A coisa sai de proporção quando o árbitro cai daquela forma patética. O mal estava porém feito e o importante era atenuar os estragos. Falar com o árbitro, falar de imediato com o clube alemão. Esse trabalho cabia à direção e não foi feito. O Benfica - mais uma vez - andou distraído. Mas outros estavam - estão sempre - atentos. E não deixam passar oportunidades destas. A lei de murphy aplica-se ao Benfica porque o Benfica tem inimigos (não adversários mas inimigos) que se movem nos meandros do futebol com tremenda eficácia.

O castigo de Jorge Jesus (15 dias durante o defeso) serviu para mostrar que afinal o CD da Federação era nosso "amigo". Tal como Fernando Gomes era nosso amigo e tinha-se zangado com Pinto da Costa quando quis ser eleito para Presidente da Liga (e depois da Federação, quando o poder disciplinar para ali foi transferido).

Acreditem no que vos digo, a lei de murphy aplica-se ao Benfica porque há gente no futebol português que não dorme em serviço. Que sabe muito bem o que anda fazendo.

Depois da "ajuda" e do castigo "amigo" no caso de Jesus (que nada interessava) veio o castigo de Luisão.

Luisão deveria ter sido castigado por comportamento incorrecto. E a fundamentação do parecer deveria ser a de que se tratava de um jogo particular e que não tinha existido nenhuma intenção de agredir o árbitro mas sim um acto irrefletido que tinha tido consequências indesejadas e pelas quais o jogador, aliás exemplarmente correcto durante toda a sua carreira, estava profundamente arrependido.

A moldura penal seria assim outra e o castigo mínimo não seriam 2 meses mas sim 2 jogos.

O Benfica deixou-se dormir - os outros não. Os outros, e penso que Guilherme Aguiar ter-se-á traído quando, cheio de si próprio e provavelmente sabedor do que vinha a caminho, falou na segunda-feira dos grandes amigos que tinha na UEFA e das suas funções de observador internacional, andavam trabalhando nos bastidores para ter a certeza de que o caso estava nos radares da UEFA e FIFA e que assim fosse colocada pressão sobre o CD da Federação.

Nos dias que antecederam o castigo interno foi-se passando a convicção de que se o castigo não fosse pesado a FIFA o poderia agravar. O CD, pressionado, achou que o melhor seria então dar logo uma pena grande, interpretando a "peitada" como agressão. O Benfica calou-se mais uma vez porque ficou satisfeito de, pelo menos, o mesmo não se alargar às competições internacionais.

Mas, mais uma vez, outros não dormiam. Então se o Benfica aceitava que se tratara de uma agressão, se a pena aplicada até fora a mais pequena, como se justificava que Luisão continuasse a actuar em jogos internacionais, nos quais as mensagens ao Fair-Play são constantes e há grande preocupação em proteger a autoridade dos árbitros? Era uma questão de tempo até ao castigo se alargar. E assim aconteceu.

Há quem não ande aqui a dormir - e há quem seja muito ingénuo. Na intersecção destas duas realidades reside a explicação da perfeita aplicação da lei de murphy ao Benfica.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Há 30 anos a fomentar ódio

Podia ser o lema do Porto de Pinto da Costa. Se é verdade que nenhum clube está isento de culpas em termos de episódios de violência ou de faltas de desportivismo, não o é menos que nunhum clube em Portugal tanto tem incitado ao ódio como o clube do Porto, liderado por Pinto da Costa.

Para a generalidade dos clubes, a violência e o ódio aos adversários são derivações ou degenerescências da paixão clubística. Algo que se tenta erradicar definitivamente, sabendo que sempre haverá manifestações episódicas, que cumpre reprimir e trabalhar para erradicar. Para o Porto porém é uma forma de estar na competição - embora seja precisamente o contrário da essência do desporto. Só assim conseguem fomentar em adeptos e jogadores o espírito de vitória a todo o custo que os caracteriza.

Vem isto a propósito dos comentadores do Porto, nomeadamente Guilherme Aguiar e Miguel Guedes nas suas últimas intervenções.

Aguiar, um homem poderoso no futebol que ainda por cima se move nos meandros da UEFA, tem vindo a usar do seu tempo de antena para defender uma pesa pesadíssima para Luisão. Ora, isto vem de um homem cujo clube ainda o ano passado teve um jogador (Belushi) a fazer igual ou pior, num jogo oficial, do campeonato. Que teve Kostadinov a fazer muito pior há uns anos. Que teve Baía, Pinto, Fernando Couto a fazerem 10 vezes pior do que fez Luisão! Que teve Hulk e Sapunaru a fazerem o que fizeram (Sapunaru reincidindo no ano seguinte). Que teve Deco a fazer o que fez - e Deco confessou já no Brasil que atirou a bota ao árbitro - e levou 3 jogos (depois reduzidos para dois).

Como é possível ser tão hipócrita como Guilherme Aguiar? Não ter vergonha disso e aparecer todas as semanas na televisão?

Depois há Miguel Guedes. No "I" de hoje, em resposta à pergunta sobre se o Benfica passará a fase de grupos da Champions, diz que se não passar "será uma calamidade" (o seu clube não passou no ano passado, sendo eliminado pelo Apoel), o que nem se percebe pois financeiramente o Benfica está agora desafogado, continuando por considerar que "a Administração estará confiante na rentabilidade a tempo inteiro de Aimar e Martins", como que agoirando lesões destes dois jogadores, e acabando com a torpe insinuação: (se Luisão não jogar) "o Benfica já demonstrou a sua confiança de sobra em Jardel, insistindo na sua contratação ao Olhanense entre jogos com o clube". Nem uma palavra de boa sorte ao Benfica.

É o mesmo que andou semana após semana a repetir, como o seu antecessor, sobre o qual já nem quero falar, que o Benfica era o clube do regime e continuanado a denegrir um árbitro morto e enterrado há anos.

Que baixeza, que velhacaria. Como é possível que esta gente não tenha vergonha de dizer em público, para milhões, estas coisas? A resposta é simples: para eles vale tudo. Só fomentam, entre os seus e entre os adversários, que naturalmente se indignam e revoltam com tais enormidades, raiva e ódio.

Aos comentadores do Benfica, certamente haverá também que apontar. No entanto o que não existe é um destilar constante de fel (como Guedes) ou de hipocrisia (como Aguiar). (Nesse aspecto, Serrão até é o menos criticável. Diz muitas coisas insultuosas, faz ataques às vezes quase alarves, mas não é torpe como os outros.)
Seara é claramente alguém que tenta ser imparcial (o que face ao fanatismo dos seus colegas, faz dele um mole na defesa do Benfica). Rui Gomes da Silva é provocador e truculento, não faz o meu estilo, mas ainda assim não se compara aos portistas. Gobern é tão ou tão pouco moderado que foi comentador, tendo-se apenas há poucos meses conhecido com certeza a sua preferência clubística.

Isto só para dizer que não somos todos iguais. Felizmente. Espero que possamos ser mais iguais - mas nunca por nos tornarmos como eles! Nesse dia o Benfica que eu conheço deixará de existir. Espero que sejamos mais iguais por aqueles que há 30 anos fomentam o ódio deixem de vez o futebol português, porventura pagando na justiça o muito que andaram fazendo.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Inimigos do peito - culpas e castigos.

Luisão foi castigado por dois meses, depois de, em jogos oficiais, jogadores do Porto terem feito igual ou pior.
Novidade?
Só para quem não quer ver as coisas tal como elas são.
João Querido Manha (é benfiquista, obviamente, mas não é por isso que deixa de ter um olhar objectivo sobre o futebol português) disse-o tal qual é: o Benfica é sistematicamente trucidado pelos poderes do futebol português.

Nem todas as "peitadas" têm o mesmo valor e a mesma gravidade. Quem não o compreende é porque não conhece a essência do futebol português.
Uma peitada num jogo do campeonato nacional, por exemplo, não pode de forma alguma ter o mesmo castigo do que uma peitada num jogo particular, disputado fora do território nacional.
Há "peitadas" que não têm qualquer maldade, como por exemplo esta:



Esta peitada deve ser vista como amigável e mesmo se não o fôr, certamente por espíritos mal intencionados, há que a compreender no contexto das emoções do jogo e da natural competitividade de quem quer (e merece!) ganhar. Quem não compreende isto é porque desconhece a essência do futebol (português).

Há peitadas em sequência que têm que ser compreendidas como um natural desejo de um jogador de se fazer ouvir, de passar o seu argumento, de demonstrar a sua inocência.

É o caso destas:


Para além das peitadas, também há correrias. Não vale a pena mostrar aqui os vídeos de António Rola ou José Pratas a fugirem de Fernando Couto, João Pinto ou Vítor Baía, porque elas estarão certamente presentes na memória de todos.
Há ainda o caso de Sapunaru, que, no jogo da taça de há dois anos na Luz (após ganhar, note-se bem) foi provocar e empurrar um steward e não contente com isso tentou ainda agredir o árbitro a pontapé. É curioso que essas imagens tenham misteriosamente desaparecido da net. Quando se pesquisa por elas aparecem vídeos com os títulos de "agressões" de Cardozo e Javi Garcia. É um certo padrão de comportamento praticado por quem acha que vale tudo para ganhar, inclusivamente andar a inundar a net de spam achando que com isso passa a ter razão.

Mas o que é realmente importante sublinhar é que os comportamentos atrás documentados não tiveram qualquer sanção disciplinar (Sapunaru, foi castigado pela expulsão, aliás na sequência de um segundo amarelo já depois do jogo terminado, mas nada mais que isso).

Mas a culpa é nossa. Disso não tenho dúvidas. É nossa por nos pormos a jeito, com a acção intempestiva de Luisão num jogo a feijões, pela reacção errada dos nossos dirigentes ao não perceber o que se "cozinhava". Mas a culpa é nossa sobretudo - e isto, além de incompreensível é quase imperdoável - por termos deixado cair Hermínio Loureiro e Ricardo Costa. Com estes dois à frente do futebol português houve um interregno na vergonha dos últimos 30 anos. Houve aplicação da lei e o fim da vassalagem a Pinto da Costa.

Desde então voltou-se ao antigamente com o beneplácito da imprensa e opinião pública.

Este país futebolístico está tão demente que até o castigo de 15 dias a Jorge Jesus é visto como um benefício ao Benfica. Isto depois do Benfica ter sido literalmente expoliado de um título. Isto depois do treinador do Porto ter dito igual ou pior a JJ, por exemplo, que com arbitragens como a do Gil Vicente-Porto "podiam entregar as faixas ao Benfica". Apesar disto, toda a imprensa desportiva (a começar pel' "A Bola") se levantou num coro de indignação pelo facto de Jesus ter sido castigado no defeso.

Ora para mim, o estranho é JJ ter sido castigado por dizer a verdade (que o jogador do Porto esteve sempre adiantado no célebre golo que resolve o campeonato, inclusive antes da bola partir) pelo que se o fiscal de linha não assinalou é porque não quis. Isto é um facto.

Mas isto é o mesmo país em que um clube não é punido pelos seus adeptos atearem fogo a um estádio, ao passo que o presidente do clube que viu o seu estádio queimado é punido por ter perguntado a Luís Duque algo como "é para isto que querias controlar a arbitragem?" (após uma arbitragem que expulsara Cardozo por sofrer duas faltas). O mesmo em que um dirigente deposita dinheiro na conta de um árbitro e o clube de que é dirigente não desce de divisão como as regras determinam.

O que mais querem que vos diga? Este é o nosso país. Este é o nosso futebol. É o mesmo há 30 anos. Desde então já houve a agência de viagem Cosmos, já houve as denúncias de Carolina Salgado, já houve as escutas, já houve o processo da noite do Porto. No entanto tudo permanece na mesma. Em Itália, país em que a Máfia teve um poder tremendo, a Juventus desceu de divisão. Aqui no pasa nada, como diria Pedro Gil, grande hoquista que durante anos jogou no Porto e que sábado desrespeitou Portugal da forma que se viu. No pasa nada.

A propósito, parabéns Pedro Proença pelo reconhecimento público dos seus amigos. Depois dos abraços e beijinhos do jogo de consagração no Dragão no fim da época passada só faltava mesmo esta homenagem.