segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A peste verde

Na época 2013/2014 o Benfica perdeu a final da Liga Europa com o Sevilha (que entretanto revalidou esse título) num jogo em que o árbitro perdoou 3 penalties claros aos espanhóis. No dia seguinte as manchetes dos desportivos falavam de Beto como o herói da final quase não referindo o roubo descarado e flagrante que aquele miserável árbitro fizera ao Benfica, objectivamente impedindo-o de ganhar a Liga Europa. Foi preciso os espanhóis, num programa televisivo, admitirem que o que se passara não fora justo e que o Benfica tinha todas as razões para estar revoltado, para se falar um pouco a medo desse roubo no nosso país.

Na época seguinte (a época passada), o Sporting perdeu um jogo com o Shalke 04 no qual o árbitro (por indicação do famigerado árbitro de baliza) assinalou uma grande penalidade quando uma bola bateu claramente na cara de um seu jogador. No dia seguinte os jornais traziam a toda a largura da 1ª página as palavras "ROUBO" e houve um alvoroço nacional com os Ribeiros, os Ritas e tantos outros em completo alvoroço como se o mundo se preparasse para acabar no dia seguinte.

Na quarta-feira, o treinador do Sporting voltou a falhar clamorosamente na Liga dos Campeões, não alcançando um apuramento que constituía o principal objectivo da época. É mesmo caso para dizer que as contas saíram furadas a Bruno de Carvalho e que caso algo mais corra mal a nível nacional não demorará muito até as comadres se zangarem. É verdade que há uma decisão prejudicial ao Sporting num golo de canto que resolveria a eliminatória e que o fiscal resolveu dizer que a bola afinal ultrapassara a linha. Mais uma vez caiu aqui o Carmo e a trindade. Mas quantas decisões dessas e piores teve o Benfica a seu desfavor nos últimos anos na Liga dos Campeões e Liga Europa sem que ninguém se importasse e menos ainda indignasse? Na eliminatória com o Chelsea em 2011/2012 o Benfica teve uma clara grande penalidade por mão descarada de John Terry na Luz que todo o estádio viu menos o árbitro - ou melhor viu, mas não quis marcar. Depois em Londres o árbitro marca um penalty aos 20 ' e expulsa um nosso jogador aos 40' em dois lances muito duvidosos. Estávamos nos quartos da Champions que o Chelsea viria a vencer. Ninguém se indignou ou falou em roubos. E o que dizer quando nas meias finais da Liga Europa contra a Juventus, um jogador dos italianos derruba Enzo Peres com uma "rabada" nas barbas do árbitro e este finge que não vê? Ou quando em Turim o árbitro desse jogo expulsa Enzo e não contente expulsa Markovic do banco (sem que este nada tivesse feito) deixando-nos depauperados para a final que depois seria ainda o "espectáculo" de que falámos no primeiro parágrafo? Isso sim são ROUBOS!

Por isso ao cabo de uma jornada em que o Benfica sofreu um golo que na altura dava um empate em flagrante fora de jogo (depois de na anterior ter tido um penalty claro sobre Mitroglou que ficou por assinalar); em que o Sporting venceu com dois penalties e uma expulsão de um jogador da Académica; ao cabo de tudo isto ainda os ouço falar, chorar e lamentar-se a propósito das arbitragens e vejo os jornais a alimentarem essa novela, digo: CHEGA! Não há paciência para essa conversa de carpideiras, de meninos choramingões, de calimeros. Cresçam e apareçam! 

Vamos (re)começar a época

Ao 4º jogo oficial, o Benfica continua a apresentar um futebol muito fraco, sem ligação, falho em ideias e pouco eficaz. Em termos defensivos a equipa está insegura e só não sofreu mais golos porque Júlio César o evitou. Há falta de entendimento entre os jogadores, parecendo muito fácil aos nossos  adversários fazer combinações à entrada da nossa área e aparecerem isolados à frente da baliza (ainda que ontem tenha existido um fora de jogo flagrante no segundo golo).
 
Aquilo que se diz dos defesas pode-se dizer acerca do meio-campo: muitas vezes os jogadores parecem perdidos em campo, correndo a apagar fogos. Pizzi demonstra nesta fase uma grande incapacidade em ligar os sectores da equipa; ontem foi Samaris quem, apesar de também ter cometido erros, mais tentou pressionar o adversário e carregar jogo. Para mim foi, a seguir a Gaitan (de quem falarei adiante) dos melhores em campo. Em geral parece haver um grande nervosismo que se reflecte numa (ou resulta de?) grande desorganização em campo. Os jogadores jogam sobre brasas e a bola queima nos pés.
 
Aflorado o lado negativo, passemos ao positivo. Em primeiro lugar, a aposta nos jovens tem dado alguns resultados. Nélson Semedo parece-me ser uma boa aposta, Victor Andrade claramente tem talento (embora seja ainda bastante verde), Gonçalo Guedes ontem entrou bem e outros seguramente se seguirão. Rui Vitória tem o mérito de não temer apostar nestes jogadores e de lhes dar confiança para irem lá para dentro e mostrarem as suas qualidades. Isso merece ser louvado. Por outro lado, Rui Vitória tem demonstrado arrojo nas substituições - ainda que por vezes elas pareçam ser fruto de um quase desespero. Pela segunda vez consecutiva, vendo-se a perder, Vitória apostou em dois pontas de lança mais Jonas e tirou um lateral. Penso que isso também merece ser elogiado e que marca a diferença em relação a treinadores que fazem substituições a partir dos 80 e por vezes muitos minutos. Destaco ainda uma outra coisa em que Vitória me parece que merece crédito: apesar das coisas estarem a correr mal (nem o Moreirense nem o Arouca mereciam estar em vantagem sobre o Benfica), o treinador do Benfica manteve (alguma) cabeça fria durante os jogos e um discurso ponderado após os mesmos.
 
 
O campeonato agora para por duas semanas para compromissos das seleções. A boa notícia é que estamos apenas 1 ponto atrás dos nossos adversários e que haverá agora tempo para trabalhar com calma (os que ficarem, porque muitos se ausentarão para representar as suas selecções) e assentar ideias e processos. Há muito trabalho pela frente! Rui Vitória tem que perceber que o Benfica tem que ter muito mais consistência defensiva, muito mais segurança na troca de bola (o número de passes falhados ou mal feitos é inacreditável) e mais soluções ofensivas para desmontar as defesas cerradas dos adversários da liga dos pequeninos (que são quase todos com excepção do Porto e do Sporting). O Benfica precisa de mais velocidade no ataque, nas combinações e nas desmarcações, mais movimentação dos jogadores e mais dinâmica ofensiva.
 
É verdade que noutras épocas os começos não foram muito mais auspiciosos. Derrotas e empates nas primeiras jornadas foram uma realidade em quase todas as últimas 6 épocas. O que mais preocupa nesta fase é uma certa indefinição do modelo de jogo que se reflecte nesse facto de nem defendermos bem (que era a marca das equipas de Vitória no passado) nem atacarmos com grande critério. Mas em abono da verdade há que reconhecer que o estágio nas Américas não permitiu a Rui Vitória trabalhar muito a equipa antes da época começar e que a indefinição do plantel também não ajudou à sua estabilização emocional.

Quero por isso acreditar que estas duas semanas - e o encerramento do mercado - permitirão a todos assentar ideias, consolidar processos e ganhar tranquilidade para enfrentar o início a sério da época: vem aí a Champions e o jogo no dragão. São precisas respostas à altura da equipa. Todos têm que trabalhar mais e melhor - como Samaris disse após o jogo - nos treinos e na preparação dos jogos. Todos têm que fazer o trabalho de casa para chegar aos jogos e as coisas saírem com mais naturalidade, sem tanto nervosismo, sem tanta sofreguidão, sem tanta dependência da inspiração do momento (que não tem sido muita).

Mas atenção: a saída de Gaitan (ontem fez "só" duas assistências) nesta altura seria o hipotecar definitivo da época. Não digo em termos de títulos, porque mesmo com ele e mais um ou outro reforço de última hora (Siqueira seria uma excelente notícia) as minhas expectativas são muito limitadas. Digo em termos de fazer uma época minimamente aceitável e que permita construir bases para o futuro. Sem Gaitan acho que poderíamos enfrentar uma época penosa.