quarta-feira, 24 de setembro de 2014

As "boas dores de cabeça"

A entrada a perder no jogo de domingo e a pouca índole atacante da equipa durante os primeiros 30 minutos apressaram Jorge Jesus a alterar muito cedo a disposição do 11 e a regressar ao esquema de dois avançados puros. A diferença foi notória: com Derley e Lima a equipa teve outra presença na área, outra acutilância.

Face ao que Talisca tem vindo a demonstrar - técnica, qualidade, envolvimento no jogo e golos - Jorge Jesus fica pois com um dilema. 

Claramente a posição onde Talisca se sentiria melhor é de Enzo. O argentino é porém o pêndulo da equipa e como tal é um titular indiscutível.

Até agora, Talisca tem jogado na posição de falso ponta de lança, segundo ponta de lança ou número 10 mas não há dúvida de que, sobretudo nos jogos em casa com equipas mais pequenas, se justifica uma presença mais permanente na área, função que Derley desempenha de um modo mais efectivo. Para além deste último, há aliás agora mais uma solução, Jonas.

No jogo com o Moreirense, Jesus optou por tirar o "trinco" Samaris e recuar Talisca que passou a jogar ao lado de Enzo. Realmente não se justificava um médio de cobertura, posicional, quando o adversário praticamente não atacava. No entanto também não é de crer que joguemos, sobretudo nos jogos mais difíceis, nomeadamente fora de casa e jogos europeus, sem um trinco de raiz ou pelo menos um jogador com características de cobertura e recuperação de bola.

Temos assim boas e variadas opções para o meio campo e para o ataque. Para além destes há ainda André Almeida, Cristante, Fedja e Rúben Amorim, Nélson Oliveira e Jara (para além dos jovens da equipa B).

Jorge Jesus tem muitas e boas dores de cabeça, como se costuma dizer, para escolher os 4 jogadores que jogam no centro do campo e no centro do ataque.

A "solução" poderá passar por uma alternância do esquema da equipa, entre os jogos fora e os jogos em casa, ora com um esquema de um ponta de lança, com Talisca no apoio e recuando para o meio campo quando a equipa defende, ora com dois pontas de lança, eventualmente com Enzo e Talisca no meio campo.


Se ainda não viu, não deixe de seguir o link para o nosso post sobre a "absolvição" de Pinto da Costa:

http://justicabenfiquista.blogspot.pt/2014/09/1-de-abril-anedota.html


1 de Abril? Anedota?

A notícia de ontem - que nem sequer aprofundei - de que Pinto da Costa foi (voltou a ser?) ilibado é algo que enjoa e que enoja. Algo que mais uma vez descredibiliza por completo a justiça portuguesa.

Faz lembrar aqueles filmes, passados em Gotham City ou nalgum outro local imaginário ou futurístico, nos quais praticamente todos os políticos, decisores e homens em lugares de poder são corruptos que ademais têm os juízes no seu bolso.

Digo-vos uma coisa, não deve ser fácil ser polícia e muito em particular polícia de investigação neste País. 

Pinto da Costa nunca foi praticamente condenado a coisa nenhuma, com excepção de uma pena de dois anos de suspensão pela justiça desportiva - da qual não recorreu - que aliás poucos efeitos práticos teve.

Nos tribunais foi absolvido em praticamente todos ou mesmo todos os processos, designadamente os ligados ao apito dourado e os que o opuseram a Carolina Salgado. Com o infame Lourenço Pinto à sua ilharga, passou incólume por tudo, desde subornos e corrupção a espancamentos encomendados.

Ora vir agora, passados todos estes anos, "absolver"mais uma vez Pinto da Costa só pode ter uma intencionalidade clara de branquear e tentar rescrever a história, possivelmente na esperança de daí retirar benefícios. 

Pelo que percebi, a Federação, com base na decisão judicial, anulou o castigo a Pinto da Costa. Trata-se de uma atitude repulsiva, que denota um comportamento e uma mentalidade viscosa. Fernando Gomes, é o responsável máximo por esta decisão. Convém registá-lo.

Nota: estava-me a esquecer de um "pormenor" importante. É que Pinto da Costa e Jacinto Paixão foram "absolvidos" alegadamente por as escutas não poderem ser aceites como meio de prova, apesar de Jacinto Paixão ter ele próprio feito um vídeo no qual confessou a corrupção.




quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Equipa (ainda) em construção

O Benfica terá feito (assim todos o esperamos) muito boas contratações, equilibrando um plantel que parecia em desagregação e perda acentuada de qualidade. Os negócios foram aparentemente bons, o problema é que aconteceram já nas vésperas do encerramento do mercado, o que significa que algumas pedras importantes não fizeram a pré-época, como Samaris e Cristante - ou nem sequer começaram ainda a jogar, como é o caso de Júlio César e Jonas. 

Esta equipa está portanto ainda em fase de construção ou crescimento. O próprio Talisca, que me pareceu desde o início um jogador com muita qualidade e enorme potencial, é um jovem que precisa de tempo para assentar na equipa. Samaris ainda mais, pois está no sector nevrálgico do centro do terreno. Por outro lado, jogadores como Bebé e Jonas terão também um espaço na equipa (embora este último não para a Liga dos Campeões) e o próprio Derley, se conseguir "crescer" e perder o medo também poderá ser uma opção válida. Na defesa veremos se Jardel será o titular do lugar.

A vitória por 5-0 em Setúbal foi evidentemente uma óptima notícia e um bom indicador da qualidade que existe e do que o Benfica poderá fazer esta época nas provas nacionais. Não permite porém embandeirar em arco, pois esta equipa perdeu jogadores que eram fundamentais na sua dinâmica do ano passado, jogadores de enorme classe, como Garay, Siqueira, Rodrigo e Markovic (para não falar de Oblak), precisando naturalmente de tempo para que os que chegaram consigam colocar a sua qualidade ao serviço da equipa e esta adquira nova dinâmica. 

É evidente que o posicionamento e a movimentação de Talisca não são os de Rodrigo, que a saída de Garay implica uma maior lentidão da defesa e que Samaris é um jogador com um estilo próprio, pelo que a equipa terá que "absorver" e se adaptar a estas realidades.

Perante uma equipa já bem estabelecida, bem trabalhada, que manteve o essencial da época passada e se reforçou "só" com Garay, Javi Garcia e Arshavin, a tarefa do Benfica tornou-se quase impossível quando erros individuais deitaram tudo a perder. Com uma desvantagem no marcador e em número de jogadores pouco depois do primeiro quarto de hora era quase impossível fazer diferente, pelo menos nesta fase. 

Nada está perdido, embora as coisas se tenham complicado. Não custa perceber que o Zénite é a equipa mais forte deste grupo. A vitória de um fraco Mónaco sobre o Leverkussen indica que o Benfica poderá, se der o seu máximo e souber ser inteligente, ficar em segundo lugar do grupo, vencendo os seus restantes jogos em casa e não perdendo fora com nenhum dos que passaram agora a ser os adversários diretos. Eventualmente terá mesmo que vencer um desses jogos, dependendo das combinações de resultados que forem surgindo.

Os adeptos estiveram bem ao reconhecer o esforço e ao apoiar a equipa. Há que continuar a trabalhar para que ela cresça, para que se torne mais sólida, mais segura, mais compacta. Será uma época longa e exigente mas penso que o Benfica pode, pelo menos ao nível nacional, fazer algo de parecido com o que aconteceu na época passada, nomeadamente ser campeão e talvez vencer a Taça. Seria certamente uma excelente época, que nos deixaria todos muito felizes. Quanto à Champions, penso que temos qualidade para poder passar este grupo, mas para isso precisamos de conseguir resultados - mais do que exibições - nesta fase em que a equipa ainda está em formação. A começar já em Leverkussen.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O plantel e as hipóteses do Benfica esta época

Com o plantel fechado até Dezembro, o Benfica apresenta um quadro de jogadores razoável para os objetivos a que se propõe esta época: renovar o título de campeão e passar a fase de grupos na Champions League.

Os piores receios não se verificaram, pois Gaitan e Enzo mantiveram-se no plantel e este foi ainda reforçado com Samaris e Cristante. Ou seja, existem várias soluções para o meio campo do Benfica.

Para duas posições no meio campo (6 e 8 como agora se repete muito) temos André, Enzo, Samaris, Cristante e o próprio Talisca, para além dos lesionados Rúben e Fedja. São portanto soluções de sobra e de qualidade. Nesta fase Samaris e Cristante lutarão por um lugar ao lado de Enzo, de acordo com o próprio Jorge Jesus, lugar que tem sido ocupado por André Almeida. Com o progredir da época podemos admitir outros cenários, pois JJ já disse que gostaria de contar com Samaris na "posição 8". Admitindo que em Janeiro o Valência poderá voltar à carga por Enzo, é de admitir que existam nessa altura reajustes no plantel.

Continuando a análise ao plantel. curiosamente, temos poucos extremos: para substitutos de Gaitan e Sálvio temos apenas Ola John, Bebé e Pizzi. Noutros anos existiram mais e melhores opções para as faixas.

O problema principal nesta altura reside no eixo do ataque: Lima é escasso. Talisca deu óptimas indicações mas não parece ser - pelo menos no imediato - um jogador com as características necessárias para jogar no ataque. Talisca é excelente no passe (finalmente temos quem cobre bolas paradas com qualidade), tem alguma velocidade mas não tem a dimensão física que um avançado necessita. Talvez JJ venha a "inventar" algum esquema ou solução que resolva este problema, mas para já o que se viu foi um Benfica com défice de concretização das várias oportunidades criadas.

Estamos ainda no início da época, por isso é de admitir que venhamos a melhorar. Para já o descalabro não aconteceu. Apesar das múltiplas saídas, a equipa continua equilibrada e com qualidade. As permanências de Luisão, Enzo, Sálvio e Gaitan eram fundamentais para manter alguma estabilidade e um patamar elevado de qualidade e Samaris e Cristante vieram dar mais soluções e acrescentar qualidade. Ficou a faltar um ponta de lança, que seria excelente ser Campbell. Talvez em Janeiro tal se possa concretizar, sendo de admitir que possa também sair Enzo nessa altura. Até lá teremos que usar a prata da casa no ataque, designadamente Derley e Nélson Oliveira na Champions e estes mais Jara no campeonato para jogarem ao lado ou em vez de Lima. É pouco mas é o que há. Esperemos que estes jogadores sejam capazes de agarrar a oportunidade e potenciar as suas qualidades. Caso Jesus acabe por decidir, como muitos crêem, que Bebé pode ser uma solução para o ataque, melhoramos um pouco o leque de soluções (embora fiquem depois menos soluções para as faixas...).

Seja como for, este grupo permite ter esperanças numa época de algum sucesso. No campeonato, o Benfica tem o conforto de ser o campeão em título e de o seu adversário estar sob bastante pressão em virtude do investimento enorme que realizou. O Porto não se pode dar ao luxo de perder mais um campeonato. O ambiente tornar-se-ia insuportável e a situação financeira descambaria. Nesse sentido, o Benfica tem uma tranquilidade maior para abordar os seus jogos, sobretudo mais para a frente na época, quando a pressão começar a aumentar. Veremos se conseguiremos transformar isso numa vantagem efectiva e suplantar o défice de valor que parece existir nesta fase em termos de cotação dos planteis.

Quanto à Champions, onde o Benfica não tem tido grande sucesso nos últimos anos, penso que existem possibilidades de suplantar este grupo e avançar para os oitavos. O Mónaco é uma equipa vulgar, o Bayer é uma equipa que já batemos no passado e que não está no patamar do Bayern ou do Dortmund e o Zénite é uma equipa forte, talvez o favorito do grupo. Qualquer equipa tem as suas chances e o Benfica tem que fazer uso da sua ampla experiência europeia para progredir na competição.




segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Falta um avançado

O Benfica foi melhor do que o Sporting e deveria ter vencido o jogo. Fez o suficiente para tal, não fosse o erro de Artur e um ataque demasiado perdulário na hora de finalizar.
Falta ao Benfica um avançado que crie e concretize situações de golo. Apenas Lima é escasso para este nível de exigência. Talisca tem dado boas indicações e ontem fez um jogo muito bom mas não tem as características de presença na área de um ponta de lança.
Por outro lado Derley, nas poucas oportunidades que teve, não conseguiu convencer, ao passo que Nélson Oliveira parece não contar para JJ.
Campbell seria uma excelente opção para reforçar o ataque mas parece-me muito difícil que tal se possa concretizar, até tendo em atenção a lesão de Giroud.

Por outro lado, a permanência de Enzo daria muitas garantias de que o Benfica, apesar das saídas altamente significativas de jogadores, poderia manter um nível qualitativo elevado esta época e ser competitivo contra plantéis mais caros (a começar, a nível interno, com o Porto que investiu muitos milhões). Com o grego Samaris, o regresso de Fedja, André Almeida, o novo médio aparentemente contratado ao Milan Cristante e o próprio Talisca passariam a existir várias e diversificadas opções no plantel para o meio campo.

Já uma saída de Enzo nesta altura obrigaria a equipa a começar quase do zero no que ao centro do terreno diz respeito. Um cenário que se deve pois evitar naquilo que depender do Benfica.

Quanto à defesa, se no centro Luisão e Jardel, com Lisandro à espera de uma oportunidade, vão chegando para a realidade do nosso campeonato, e na esquerda estamos bem servidos (há ainda Benito), já na direita não existe à partida uma alternativa consistente a Maxi. André Almeida pode episodicamente desempenhar as funções mas não tem o ritmo subida/descida necessário para dar dinâmica à equipa. Havia esperança de que Cancelo fosse essa alternativa mas por razões que desconheço saiu.

Finalmente no tocante à baliza penso que Artur terá ontem feito um dos últimos jogos como titular, devendo Júlio César assumir o lugar com naturalidade e com benefícios para a equipa. Artur nunca conseguiu aprender a sair dos postes ou a jogar com os pés, transmitindo assim nalguns jogos uma tremenda insegurança. Júlio César não sendo um Oblak é no entanto um guarda redes consistente, emocionavelmente estável, experiente e rodado ao mais alto nível. Creio que a sua entrada poderá dar estabilidade ao sector defensivo.

Muito está pois ainda em aberto neste dia de fecho do mercado de transferências que será de bastante ansiedade para os benfiquistas, nomeadamente a questão Enzo e do ponta de lança.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Assim será difícil...

Claro que ainda é cedo, mas este plantel do Benfica está muito longe do mínimo exigível.

É muito difícil, senão quase impossível, manter o nível de competitividade da época passada com a sangria de jogadores titulares que se está a verificar: o guarda redes titular indiscutível, um central de classe mundial, um lateral de grande pulmão, o centro nevrálgico do meio campo (tudo aponta para que Enzo sairá também) e um dos avançados titulares. Markovic e André Gomes são baixas no plantel mas não tanto no 11 (Sálvio substitui o sérvio sem problemas ao passo que Gomes não era um titular indiscutível). 

Para que tal pudesse acontecer, seria necessário o Benfica contratar outros nomes de relevo, outros jogadores com dimensão, categorizados. Até agora isso não aconteceu. O Benfica tem contratado alguns jogadores médios, com algum potencial, como o brasileiro Talisca, mas pouco mais do que isso. Sem Enzo e sem Fedja, que continua lesionado e só regressará com a época já a decorrer (e veremos em que condições), este quadro de jogadores não dá garantias. Pelo contrário, sugere que poderemos andar algumas jornadas até à equipa se equilibrar, o que pode significar uma perda de pontos considerável.

Compreende-se que existam necessidades de realizar algum dinheiro e que a pressão dos clubes financeiramente mais poderosos torne insustentável a permanência de um jogador com mercado e promessas de grandes ganhos salariais. No entanto tem que existir um equilíbrio nas coisas, caso contrário volta-se o Benfica-entreposto, uma porta giratória na qual jogadores entram e saem sem consolidar uma equipa. 

De titulares, de jogadores claramente com classe para serem titulares do Benfica, temos neste momento no plantel Maxi Pereira, Luisão, Fedja, Gaitan, Sálvio e Lima. É pouco. E fala-se ainda da possível saída de Gaitan. 

Num quadro destes será difícil ganhar algo de relevante esta época. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Duras lições do Brasil

A participação absolutamente falhada e quase patética da selecção nacional neste Mundial tem evidentemente mais do que uma causa. No entanto, toda a história d' "o melhor do Mundo" e o circo que consequentemente se montou à volta a selecção foi algo de muito nocivo.

A derrota desastrosa contra a Alemanha e a insistência dos jogadores e técnicos em que não tinham que mudar nada marcaram definitivamente o nosso destino no Mundial - e deveriam marcar o fim de ciclo para alguns.

Se alguém se der ao trabalho de ir ler tudo o que eu escrevi desde o início do Mundial, verifica que infelizmente antecipei no que se ia passar. Desde a insistência num meio campo que claramente não chegava à "Ronaldomania" identifiquei as duas principais fraquezas desta selecção. A lição tem que ficar para o futuro.

Comecemos pelo princípio: a convocatória.

Paulo Bento não pode inventar nem contratar jogadores. Postiga, Hugo Almeida e o próprio Éder não acrescentam praticamente nada à nossa selecção mas são o que temos. Não há mais.

No meio campo talvez Adrien pudesse ter sido convocado. Na defesa Antunes deveria claramente te-lo sido. Mas essas situações pontuais dificilmente teriam um impacto significativo na nossa participação no Mundial.

Já quanto ao 11 a questão é diferente.

Paulo Bento cometeu erros que eu identifiquei em tempo devido, tal como aliás muitos comentadores e observadores. Meireles (não é por ter sido do Porto, porque na selecção não há clubes) claramente já não tem condições para estas andanças. Veloso perdeu muita "intensidade" na Ucrânia e também já não é jogador de selecção. Dia 17 de Junho eu escrevi isso mesmo e também que William e Amorim deviam entrar na equipa. Escrevi antes do jogo com os EUA. Paulo Bento também achou isto mas apenas depois do jogo com os EUA, quando estávamos já praticamente eliminados.

Também achei que, face á pobreza dos nossos pontas de lança, Ronaldo devia jogar no meio abrindo uma vaga para Varela ou Vieirinha. Isso traria a vantagem adicional de proteger o flanco esquerdo, que com Ronaldo a não recuar, ficava entregue apenas ao lateral esquerdo. Paulo Bento percebeu o problema mas não optou por esta solução, ou fê-lo apenas parcialmente. Não sabemos se terá sido o próprio Ronaldo a não querer esta solução. O que nos leva ao ponto seguinte.

É evidente que sem Ronaldo Portugal com toda a probabilidade não teria estado no Mundial. O seu hat trick na Suécia (que juntou ao golo da primeira mão em Lisboa) marca um exibição memorável e uma noite para recordar. Ninguém lhe tira esse mérito.

Mas a selecção tem que estar acima de todos os indivíduos. Este ano isso não aconteceu. Esta foi a selecção de Ronaldo e seus acólitos, constantemente a repetirem que ele era "o melhor do mundo" e sempre preocupados em darem-lhe a bola, mesmo quando estavam em melhor posição para finalizar. Isso foi desastroso para a selecção. É verdade que foi um pouco assim que vencemos a Suécia. É verdade que com um jogador da qualidade de Ronaldo essa tentação existe. É verdade que provavelmente os jogadores (com excepção de Nani) sentiam que eles próprios não tinham capacidade para finalizar, passando a responsabilidade para Ronaldo. Mas isso não pode ser uma estratégia de jogo. Pelo contrário tem que ser contrariado. As equipas têm antes de mais que ser um colectivo harmonioso. Só assim se destacam depois os talentos.

Ronaldo fez o que conseguiu mas há que perceber que dadas as suas características, o estilo do seu futebol e a sua personalidade, ele não tem (pelo menos por agora) perfil de líder dentro e fora de campo. Messi ou Neymar, pelas suas características de condução de bola, têm mais influência nas suas equipas do que o capitão português.

Mas se o mediatismo do melhor jogador português não foi bem gerido, já o circo que se montou à volta da selecção não é de modo nenhum sua culpa. Entrevistas constantes, directos a toda a hora e momento, nomeadamente dos treinos, com as imagens a chegar a todo o mundo, treinos à porta aberta, tudo isso não constitui de forma nenhuma um ambiente normal e propício à concentração exigida. Chegou-se ao cúmulo do ridículo de se "entrevistar" Ronaldo durante um treino para lhe perguntar "Ronaldo, tudo bem?". Parecia que se estava no café. Aí as responsabilidades têm que ser repartidas entre a FPF (que certamente fez este acordo com RTP e Sporttv para se promover e provavelmente receber mais uns dinheiros) e Paulo Bento (que não protegeu devidamente o seu grupo e a sua própria pessoa). Após os jogos o seleccionador via-se obrigado a falar por 3 e até 4 vezes às televisões! Isso é absurdo. Para além de ser filmado o jogo inteiro o que também o expõe em demasia.

Por último, há que pensar seriamente no futuro do futebol português e sobretudo do jogador português. Os níveis mínimos de portugueses nos três grandes são preocupantes. Esperemos que a aposta da formação do Benfica seja para ter sequência e continuidade e que cada vez mais jogadores formados no clube possam chegar à equipa principal. Sem essa base consistente não será certamente com jogadores a jogar no Chipre, na Grécia ou na Turquia que poderemos ter uma selecção muito competitiva.

Há pois que aprender lições deste Mundial. Precisamos de mais trabalho de base, de mais humildade, de mais cabeça e de menos espectáculo, menos mediatismo, menos declarações bombásticas, menos expectativas. Menos individualismo e mais espírito de grupo. Representar Portugal tem que ser encarado com um sentido de responsabilidade que esteve algo ausente deste grupo de jogadores e dirigentes que se julgaram por momentos as principais vedetas.