Começa a ser algo incompreensível o que se passa com a selecção nacional. Os resultados estão a ser relativamente positivos, Ronaldo, de quem somos sempre dependentes, está a render acima do esperado, mas a produção futebolística está a ser muito fraca. Portugal não consegue ter a bola nem fazer três passes seguidos. Se contra a Espanha isto se poderia explicar pela grande qualidade dos espanhóis e seu conhecido modelo de jogo - que além de passar por muita posse de bola e grande quantidade de passes (algo que resulta obviamente não apenas do modelo mas também da qualidade dos intérpretes) tem também como vector uma grande pressão sobre a equipa adversária nos momentos em que perde essa posse - já no caso de Marrocos não há desculpas. Marrocos pressionou muito Portugal, de forma muito física, mas os nossos jogadores tinham mais do que capacidade para ultrapassar as primeiras linhas dessa pressão e sair para ataques rápidos. Não o fizemos e raramente fomos perigosos. Pelo contrário Marrocos esteve quase sempre "em cima" da nossa defesa, criando múltiplas oportunidades de golo. Valeu Patrício...
É verdade que entre as explicações poderemos contar com o mau momento ou a falta de ritmo de alguns jogadores. Mas isso seria redutor pela seguinte razão: jogadores que fizeram excelentes épocas nas ligas europeias de mais alto nível, como Gonçalo Guedes e Bernardo Silva estão a ser dos menos inspirados. Bruno Fernandes em quem também se depositam legítimas esperanças também ainda nada fez. Há portanto um problema mais colectivo que o treinador diz não conseguir identificar.
Para mim o problema é relativamente simples. No Euro 2016 jogámos sempre com quatro meio campistas. Pouco me interessa se nominalmente jogávamos em 4-1-3-2 ou 4-4-2. O que é significativo é que jogávamos com quatro jogadores com cultura de meio campo: William, Adrien, Renato e João Mário. Essa era a nossa base, sendo que com o desenrolar do jogo normalmente entravam opções mais ofensivas, como Quaresma ou Éder. Ao lado ou atrás de Cristiano jogava normalmente Nani que recuava muitas vezes para construir jogo ou apoiar o meio campo. Ora neste momento estamos a jogar com um centro campista a menos (começámos o Mundial com dois a menos) e um segundo avançado (Guedes) que raramente recua. Temos pois necessariamente menos gente no meio e menos capacidade de choque/recuperação de bola. Ter Bernardo Silva ou Renato Sanches não é de modo nenhum comparável.
Note-se que não estou a questionar minimamente a capacidade ou méritos de Bernardo, Gonçalo e Bruno. Pelo contrário, defendi mesmo antes do Mundial que estes eram os jogadores de quem poderíamos esperar algo mais, que davam à selecção um toque extra de qualidade, criatividade e magia. E continuo a acreditar nisso. Simplesmente qualquer um deles, especialmente Bernardo e Bruno, precisam de estar mais envolvidos no jogo a meio campo e não apenas pensar em atacar a baliza adversária. Penso que este é o equilíbrio que está faltar a Portugal, que faz com que os dois jogadores do meio estejam muito sozinhos e pressionados e acabem por perder a bola demasiado rápido, não permitindo ligar os diferentes sectores e assentar o nosso jogo.