quarta-feira, 24 de junho de 2026

O positivo e o negativo

 Agora já quase ninguém usa máquinas analógicas, mas antes dos anos 90 eram as únicas que existiam. Tinham um rolo fotográfico que depois de terminado se levava a uma casa ou estúdio de fotografia para revelar. O primeiro passo era a impressão do negativo. Aí as cores estavam invertidas, sobretudo os claros e os escuros.

No primeiro jogo de Portugal vimos uma imagem. No segundo vimos uma imagem invertida. Um foi praticamente negativo do princípio ao fim, com a excepção do grande golo de João Neves. O outro pareceu um mar de rosas. Mas não foi. 

Como de certo modo antecipei, Ronaldo marcou dois golos. 

O positivo: foram dois belíssimos golos, duas finalizações clínicas; a seleção marcou 5 golos, Bruno Fernandes divertiu-se em campo e perfumou o nosso futebol; Rúben Dias voltou; Rafael Leão marcou. 

O negativo: o nosso meio campo continuou a não carburar e não ser capaz de controlar a posse e o ritmo do jogo; Vitinha teve mais uma exibição apagada; permitimos transições fáceis ao Uzbequistão que não resultaram em golos ou oportunidades flagrantes por manifestas limitações do adversário; Bernardo Silva parece alheado do jogo. 

O factual: o Uzbequistão pertence à terceira divisão do futebol mundial; Ronaldo tem 41 anos e jogou os 90 minutos mais descontos; Gonçalo Ramos não saiu do banco; a Colômbia chega ao jogo com Portugal em primeiro lugar no grupo e a precisar apenas de um empate. 

A incógnita: estamos a melhorar e evoluir ou o adversário foi tão vulgar que as nossas qualidades tiveram todas condições para se expressar e as nossas carências praticamente não foram expostas?

Portugal está muito perto do apuramento, mas não é de todo certo que passe em primeiro. Só o conseguirá se vencer a Colômbia e para tal terá de jogar muito mais. Esse jogo vai mostrar se há uma evolução ou se a vitória sobre o Uzbequistão (absolutamente obrigatória, qualquer outro resultado seria inadmissível e deixáva-nos perto da eliminação) foi um pequeno oásis num deserto. 

Acredito que somos capazes de muito mais e melhor, mas insisto que no futebol altamente competitivo de elite, onde as diferenças são mínimas, não é possível ter um jogador que não defende e não pressiona. Ronaldo mostrou que ainda é capaz de finalizar com qualidade (teve espaço e tempo que provavelmente outras seleções não concederiam), mas também que dura apenas meia parte a alta intensidade. Deveria começar o jogo no banco mas sabemos que não é isso que acontecerá. 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Ronaldo: penoso, embaraçoso, a forma errada de sair.

Pessoas com personalidade muito forte e um grande ego tendem a rodear-se de pessoas com fraca personalidade que se limitam a dizer-lhes que sim e a alimentar-lhes o ego. Uma espécie de côrte. Aos poucos os egomaníacos perdem o contacto com a própria realidade.

Ronaldo é uma pessoa com uma forte personalidade e um grande ego. Evidentemente tem qualidades superlativas seja ao nível psicológico, seja ao nível futebolístico que lhe permitiram ser uma das pessoas mais idolatradas do mundo. Mas o ego tem uma dimensão destrutiva e levou-o a pensou que era imune ao passar do tempo. 

Depois, demasiadas pessoas alimentaram essa fantasia, incluindo todos os média, por exemplo ao dizer que a idade biológica dele era de vinte e tal anos. Certamente Ronaldo tem muito mais força e velocidade do que muitos de 30 e até de 20. No entanto Ronaldo não está a jogar com pessoas comuns, está a jogar contra adversários que são também atletas profissionais. Além disso, a sua idade biológica é de 41 anos, nenhuma outra. E acresce ainda que na fase final da sua carreira ele se focou apenas no aspecto físico e atlético, pelo que quando estes declinam brutalmente a sua performance tem o abaixamento correspondente.

Não é por acaso que Ronaldo tem zero golos nos últimos 10 jogos em fases finais e que o golo antes disso foi  contra o Gana e de penalty. O problema não vem do jogo com a RD Congo, vem de há muitos anos. Ronaldo teve uma boa Liga das Nações numa carreira cujo declínio era já mais do que evidente e devia ter aproveitado para sair aí, em grande.


***

Quando vi Messi no último jogo não queria acreditar. E imediatamente percebi que aquilo iria afectar seriamente Ronaldo. Este, para além de muito competitivo, o que é saudável, tem uma rivalidade com Messi conhecida, que teve vários episódios. O ego de Ronaldo tem muita dificuldade em aceitar que no fim Messi ganha essa competição particular por goleada. Muitos portugueses também têm. Mas é a realidade pura e dura.

Ronaldo foi um jogador de eleição. Um dos melhores de sempre. Agora é um jogador banal. E ambas continuarão a ser verdade, quer marque um ou mais golos ao Uzbequistão (uma seleção que não deveria estar numa competição destas) quer continue a jogar a titular até ao fim do mundial com exibições semelhantes à de ontem.

A questão que agora se coloca é o que fará Martinez, se é que é ele quem toma as decisões. Continuará Portugal a jogar com um avançado que é incapaz de pressionar, incapaz de contribuir com algo de positivo para o jogo colectivo e quase inofensivo no ataque, ou haverá suficiente bom senso, do próprio ou de alguém que tenha a coragem de liderar, e Ronaldo passa a sentar-se no banco? Paradoxalmente, é a partir do banco que Ronaldo ainda poderá ter algum impacto positivo no jogo: em situações de desespero e com o jogo já numa fase avançada, contra defesas sob pressão e já desgastadas pelo cansaço, Ronaldo pode ser perigoso, sobretudo se não for egoísta e colocar os interesses da equipa acima de objetivos individualistas.

Isto tudo é demasiado óbvio para passar despercebido a quem tem responsabilidades na seleção. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Macaco ou filhos da put4?

 Aqui há umas semanas o mundo inteiro ficou em estado de choque porque um jogador supostamente chamou macaco a Vinícius. Uma palavra que só o ofendido e Mbapé ouviram. O jogo foi interrompido e poderia até ter sido cancelado. Prestiani foi suspenso e o Benfica pode vir a ser gravemente punido. 

Ontem, durante um minuto de silêncio em homenagem a um dos maiores escritores portugueses do último século, milhares de adeptos cantaram em uníssono: "filhos da puta". Não li nem ouvi um único reparo nos media. 

Siga, mais um dia no escritório. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Valerá a pena continuar a ver futebol?

A dualidade de critérios, os "erros" óbvios, as injustiças gritantes começam a ser ocorrências demasiado frequentes no futebol para quem preza o desporto limpo.

A dada altura, pergunto-me, de forma sincera, se vale a pena continuar a ver futebol. 

O problema nem sequer é exclusivo de Portugal: o mundo inteiro pôde ver o que se passou na primeira mão da eliminatória Benfica-Real Madrid. Há alguma dúvida de que foi uma arbitragem encomendada? Em cima disso e para deitar sal na ferida, a UEFA castiga Prestiani sem provas e sem o processo estar concluído e absolve Valverde apesar das provas irrefutáveis. 

Hoje no Porto, uma equipa de batoteiros, na qual o guarda redes finge lesões para terem descontos de tempo, os jogadores de campo fazem anti jogo na sua própria casa contra equipas pequenas e os apanha bolas roubam toalhas e bolas, teve direito a dois pontos oferecidos de mão beijada pelo árbitro. O VAR, com todas as imagens disponíveis, consegue não intervir. E a posteriori vêm os porcos, sim, porcos, dizer que o VAR "não pode intervir porque não é um lance claro e óbvio".

Portanto, para que todos entendamos bem o que está a acontecer: O VAR pode intervir num lance no mínimo duvidoso a meio campo, muito antes do golo (Carreras, final da Taça, golo do Bruma que nos dava a vitória), mas não pode intervir num penálti que não é 😄🤡.

O que é que se pode dizer mais? Vale a pena? 

Isto para já nem falar das mãos que umas vezes são penalti e outras não, conforme convém e conforme a equipa. 

Isto é uma palhaçada e mete nojo a qualquer pessoa decente. 

Para os doentes, pelo contrário, está bom. 

Está a decorrer o Torneio das 6 Nações (antigamente 5 Nações) e eu tenho visto alguns jogos. Apesar de também haver VAR ele é usado apenas para esclarecer situações factuais (se a bola tocou ou não no chão para lá da linha de ensaio ou se um jogador agrediu outro). Não há estas polémicas, não há estas decisões escandalosas, não há vergonhas de árbitros a decidirem jogos. O jogo é mais lento e menos dinâmico do que o futebol, mas há mais hombridade, lealdade e desportivismo. No final do jogo todos aceitam o resultado e raramente alguém sai com a sensação de que foi roubado. É um contraste enorme para com o futebol. 

Também não creio que os órgãos dirigentes sejam tão corruptos, possivelmente também porque os valores financeiros em causa são muito inferiores. Mas isso não é uma desvantagem, pelo contrário: o desporto não é, não deve ser regido pela ganância e a cupidez, mas sim por valores. 

Sinceramente tenho cada vez mais dúvidas de que o futebol mereça o meu tempo. 


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Foram homens

 Os jogadores do Benfica fizeram um jogo digno. O golo do empate ditou o desfecho da eliminatória. Caso tivéssemos mantido a vantagem naquela altura acredito que poderíamos ter ferido o Real de outra forma. Não foi assim. Mas perder 2-1 em Madrid não é uma vergonha para ninguém nem um resultado anormal de mau, seja para quem for. Acresce que o Real não estava a jogar a feijões nem ia ser surpreendido de novo. Ou seja, o Real jogou no máximo em matéria de foco no jogo e níveis de concentração. 

Não tenho dúvidas de que depois do que aconteceu em Lisboa eles teriam gostado de nos vergar e humilhar, mas simplesmente não apenas não o conseguiram, como pelo contrário se viram obrigados a defender, nalguns casos com todos os homens atrás da bola.

Perdemos, é um facto, mas no futebol isso pode acontecer mesmo quando uma equipa joga mais do que outra, sobretudo quando a outra é um colosso europeu. 

Está-se a construir algo no Benfica. Nos últimos anos tivemos alguns grandes momentos, mas nunca senti consistência ou sustentabilidade. Neste momento vejo uma progressão, tenho confiança na equipa, na sua capacidade. Faltam algumas coisas, porque não conseguimos ser letais no ataque e por vezes temos até dificuldade em criar oportunidades contra equipas muito fechadas na defesa. Mas há uma melhoria gradual e visível. Agora há que prosseguir neste caminho, mesmo que este ano não traga nenhum título. Há que continuar o trabalho e reforçar a equipa com os jogadores que são necessários e não com "oportunidades de negócio". Esta é a minha convicção. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Uma derrota e uma polémica

 O Benfica perdeu, mas competiu contra o Real Madrid, num jogo em que a arbitragem foi mais importante do que o factor casa, prejudicando gravemente o Benfica numa série de decisões escandalosas e inexplicáveis. Pelo menos dois jogadores do Real Madrid deveriam ter sido expulsos (segundo amarelo a Vinícius e vermelho directo a Valverde) e outros amarelados logo na primeira parte. Foi uma arbitragem à la Madrid. Muitos espanhóis e amantes de futebol de outros países assinalaram veementemente nas redes sociais a pouca vergonha de decisões que só se podem explicar pelo peso do Real Madrid.

Quanto ao jogo: boa entrada do Benfica no jogo, alguns períodos de domínio, mas um fim de primeira parte com o Real Madrid a sufocar e a merecer a vantagem que acabou por chegar apenas na segunda, com um grande golo de Vinícius. 

Depois disso foi o que se sabe: uma dança de mau gosto, para não dizer obscena, do jogador brasileiro, talvez explicável por ser Carnaval. O problema é que, não contente com isso, Vinícius ainda se pôs a levantar os braços para os adeptos e aí o caldo entornou. Os jogadores do Benfica não gostaram e no meio das picardias Prestiani chamou ao brasileiro ou mono (macaco em espanhol) ou maricon.

Bonito? Naturalmente que não. Mas Mourinho tem razão: há casos com Vinícius em todo o lado (faltou dizer que Prestiani também se envolve em bem mais do que deveria).

Vi no comentário internacional Seedorf e outros dizerem que respeitam Mourinho mas que ele "culpou a vítima".

Sobre isto apenas duas ou três notas. 

Primeiro, vítima de quê? Foi morto? Agredido? Sou eu que estou a ver mal ou Vinícius é um milionário pago para jogar à bola que ganha mais num mês do que a maioria da população mundial em toda a vida e que é idolatrado por milhões? Se ele é uma vítima o que são aqueles que acordam todos os dias de madrugada para trabalhos muitas vezes duros e arriscados, por vezes mal tratados pelos patrões para chegar ao fim do mês e ganhar ordenados mínimos? 

Vinícius foi "vítima" de um alegado insulto racista depois de provocar os adeptos e de se envolver em provocações com os jogadores do Benfica. Ou ele estaria a declamar poesia a Prestiani e elogiar o seu talento futebolístico quando aquilo aconteceu?

Eu sei que esta visão das coisas não é politicamente correcta, mas que insultos é que são aceitáveis? Filho da p... pode-se? 

Volto a dizer, se Prestiani chamou mono, não é bonito e deve ser reprovado, mas sinceramente não consigo achar que isso seja o fim do mundo ou sequer que justifique o jogo estar parado mais de 10 minutos. Se o chamasse de forma evidente, em frente de toda a gente e o árbitro nada fizesse, eu entendia a reação. Assim, não tendo o árbitro ouvido e não podendo obviamente fazer nada porque não há provas, acho que tudo isto não passa de folclore.

O episódio marcou negativamente o jogo e pouco mais futebol houve depois disso. 

O Benfica teve muitas dificuldades em criar verdadeiras situações de perigo. O Real estava já acautelado e preparou bem um jogo em que contou com todos os "pesos pesados" com excepção de Bellingham. Os seus jogadores puderam além disso ultrapassar impunemente os limites da agressividade. Sinceramente dá que pensar se, depois de uma arbitragem "simpática" para o Benfica no jogo anterior, o que aconteceu esta terça-feira no Estádio da Luz não foi premeditado.

O jogo da segunda mão em Madrid será jogado com muita carga emocional. Precisaremos de 11 guerreiros em campo. As chances do Benfica passar são baixíssimas, mas dê por onde der há uma história, uma imagem e um prestígio a defender. 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Os mouros, os marroquinos (FC Porto)

 Durante muito tempo os portistas chamaram aos benfiquistas mouros e marroquinos. Até já escrevi aqui sobre o assunto há vários anos. Mas é chegado o momento de regressar ao assunto face ao que aconteceu no último clássico Porto-Sporting.

Poderia focar-me no facto de que chamar "mouros" e "marroquinos" como forma de insulto nos dias que correm seria visto como racismo, xenofobia e islamofobia. Mas não é por aí que vou.

O que pretendo demonstrar é que se há alguém que merece ser assim chamado são os próprios portistas - e que eles devem até abraçar e acarinhar essa afinidade com os nossos vizinhos do sul. 

Com efeito, na última CAN, decorrida em Marrocos, ficaram famosas as imagens dos apanha bolas a roubar toalhas. Foi algo de insólito, inusitado, original, nunca visto. 

Foi dito que uma coisa destas só poderia acontecer em África (neste caso foi no norte de África, no Magrebe, Marrocos). 

Mas afinal havia alguém que estava à espreita, alguém que se inspira e olha para Marrocos como um exemplo. 

Esse alguém é o Futebol Clube do Porto, os seus adeptos e dirigentes e o seu dirigente máximo André Villas Boas. Os portistas devem a partir de agora sentir-se orgulhosos de ser chamados marroquinos e Villas Boas o maior marroquino de Portugal.

Dizia o outro: "somos Porto". Podem agora passar a dizer "somos Marrocos".