quinta-feira, 7 de abril de 2016

Na Europa dos crescidos

O Benfica teve a coragem de jogar nos limites em Munique, nos limites do esforço e do risco. Isso viu-se logo no primeiro minuto com o golo do Bayern. O Benfica estava a arriscar tudo na fidelidade a uma ideia de jogo que passava por discutir o jogo com o Bayern o mais longe da nossa baliza que fosse possível.
O resultado mostra um Benfica que não foi trucidado, que não batido de forma categórica mas que efectivamente frustrou bastante as intenções do Bayern, teve as suas oportunidades e deixou o adversário em sentido. O Benfica perdeu o jogo (não há volta a dar a isso e não há que festejar uma derrota) mas não perdeu a eliminatória. Na Luz é possível reverter este resultado.
Ouvi alguns comentários que sugeriam que o Benfica deveria ter sido mais ambicioso e atacado mais, sobretudo nos últimos 15-20 minutos. Parece-me de uma total falta de sentido das realidades e da esperteza pós-factos. Antes do jogo admitia-se uma débacle e uma goleada: segundo disseram na TV, a média de golos marcados em casa pelos bávaros nesta Liga dos Campeões era, até ao jogo do Benfica, de 4! O Arsenal levou ali 5. O Porto na época passada 6. O Sporting aqui há umas épocas atrás 7. O próprio Benfica, numa fase muito difícil da sua história perdeu ali por 5. E agora depois do jogo que terminou com um parco 1-0, marcado quase "antes" do jogo começar, queriam que o Benfica fosse ao Olímpico de Munique encostar a equipa de Guardiola às cordas e asfixia-la até marcar o golo do empate... Não é sério.
O Benfica fez o jogo que era possível fazer, muito acima, admito, das minhas expectativas. Nomeadamente fiquei surpreendido com a incapacidade revelada pelos alemães em nos manietar e cavalgar sobre a nossa defesa como costumam fazer e aconteceu por exemplo ainda há duas semanas contra a Juventus. O Benfica não teve medo de ter a bola, fez algumas jogadas interessantes e teve três grandes oportunidades, uma delas não devidamente substanciada pela falta de decisão do árbitro quando Lahm jogou a bola com a mão dentro da área. Normalmente vejo ser marcado penalty nestes lances. Não é seguro que marcássemos e mesmo que o fizéssemos não é certo que o resultado final viesse a ser melhor do que o que foi. Nunca sabemos o que aconteceria se algo tivesse sido diferente.
O que importa é que daqui a uma semana o Benfica estará a disputar no seu Estádio a possibilidade de passar à meia final da Liga dos Campeões. Essa realidade é indesmentível e seria completamente inimaginável há 6 meses. Mérito do treinador e da equipa.
Por outro lado, importa compreender que o jogo em casa será tão ou mais difícil que o de Munique. O Bayern não é uma equipa que se transfigure quando joga em casa ou que se desmorone quando joga fora. Agora, penso que o Benfica poderá ter conseguido colocar um pouco de dúvida e incerteza nos jogadores do colosso alemão. Se isso não nos subir à cabeça, se não pensarmos que agora em casa tudo será mais fácil e que estamos "quase" a eliminar o Bayern, se pelo contrário jogarmos com a mesma humildade e simultaneamente a mesma confiança com que jogámos na Alemanha e se as coisas nos saírem bem, temos as nossas chances. São vários "ses" mas só mesmo em circunstâncias especiais e extraordinárias o Benfica, com a realidade económico-financeira de um país como o nosso, pode almejar a eliminar um colosso destes.
Uma coisa diferente é poder jogar nestes palcos, poder chegar a estas fases e poder ganhar o respeito dos adversários. Isso penso que não só é possível como deve ser sempre o objectivo do Benfica. Jogando a um nível muito alto, sem medos nem complexos mas simultaneamente com a noção da nossa dimensão por comparação à de outros, podemos fazê-lo. Este ano esse objectivo está a ser amplamente conseguido. Mais uma vez, o mérito é do chamado "grupo de trabalho" mas aqui há que destacar Rui Vitória não apenas pela atitude mas pela forma como tem preparado os jogos. Notável.

 

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