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quarta-feira, 25 de setembro de 2024

O que Lage precisa de melhorar




1. Bruno Lage entrou bem no Benfica e tem tomado boas decisões. 

2. Depois de vencer os três jogos disputados, alguns comentadores defenderam que afinal os adversários eram fraquíssimos e que o Benfica até deveria ter vencido mais facilmente. Entendamo-nos: uma equipa joga sempre o que a outra deixa. As equipas contra as quais o Benfica jogou são evidentemente menos fortes e têm menos soluções. Mas cada jogo tem a sua história e ter valores individuais superiores não garante coisa nenhuma, é preciso depois ter a capacidade de traduzir essa superioridade em jogo jogado e, mais importante ainda, em golos.

Mais: o Santa Clara chegou à Luz com o estatuto de surpresa do campeonato até ao momento e entrou no jogo a ganhar; o Estrela Vermelha não perdia em casa desde uma derrota pela margem mínima contra o Manchester City ainda no ano passado; e as deslocações ao Bessa não têm sido fáceis nos últimos anos. 

Nessa medida as vitórias do Benfica têm mérito.

3. Dito isto, há muita coisa a melhorar. Temos de ter a percepção clara de que o Sporting está fortíssimo, o que reduz a margem erro para quase zero, até porque já estamos a 5 pontos. E temos de perceber que temos de ser mais consistentes e competitivos se queremos ter sucesso já nesta época. 

4. Aspectos em que temos de melhorar:

a) consistência e rigor defensivo. 

António Silva está a subir de forma. Otamendi também. Mas ainda há erros e falhas de concentração que precisamos de reduzir ao mínimo. Os golos contra o Santa Clara e o Estrela Vermelha são disso exemplos. Neste último, não podem ir os dois centrais ao mesmo adversário, deixando outro sozinho, enquanto um lateral coloca este último em jogo e isolado frente ao guarda redes. Carreras tem estado muito bem, mas ainda é verde e haverão dores de crescimento (espero que Best possa ser alternativa para permitir ao espanhol esse tempo e espaço para melhorar). Na direita ainda não há alternativa a Bah. Apesar de Tomás Araújo ter feito um jogo consistente com o Boavista falta ver contra um adversário mais forte. Kaboré precisa ainda de ganhar rotinas.

b) controlo de jogo com bola 

O Benfica resolveu os últimos dois jogos na primeira parte e depois procurou gerir. Mas contra o Estrela Vermelha, que pressionou muito, o Benfica não foi capaz de manter posses de bola prolongadas e com isso retirar ímpeto ao adversário. É importante conseguirmos isso e temos jogadores para tal, sobretudo com este meio campo a três. 

c) condição física 

Tem-se notado uma quebra de rendimento da primeira para a segunda parte. Isso tem a ver também com a condição física. 

d) rotação e gestão do plantel 

Com a chegada de um novo treinador os jogadores ganham uma motivação extra e um novo ânimo porque se querem mostrar e reclamar mais oportunidades. Mas isso não dura sempre. Lage tem muitas e boas soluções e precisa de as utilizar. Leandro Barreiro já mostrou qualidade. Precisa de jogar mais tempo. É um jogador com boa rotação e capacidade de ganhar e manter a posse de bola. Amdouni tem uma qualidade acima da média. Akturkoglu mostrou já imensa qualidade e é naturalmente titular, mas Amdouni, seja na esquerda ou na direita, tem de jogar mais tempo. Arthur Cabral está a mostrar uma grande determinação e a desequilibrar as defesas adversárias com a sua capacidade física. Precisa de mais tempo. 

Este é um dos segredos do sucesso de Rúben Amorim: a rotação do plantel e a gestão física e mental que assim consegue, retirando o melhor de cada um e para a equipa. Rúben roda o meio campo, roda os centrais (incluindo com substituições durante o jogo, se necessário logo ao intervalo) e roda os alas. Só não roda (nos jogos "a doer", porque nos outros também os deixa no banco) Pedro Gonçalves e Gyokeres porque são os grandes desequilibradores da equipa. Lage precisa de aplicar este princípio no Benfica. 

Principalmente este ano em que o número de jogos roçará o absurdo não faz sentido nenhum estar a jogar sempre com os mesmos. Há que promover muita rotação. E pelo que se viu temos um plantel equilibrado e que permitirá fazê-lo.

e) eficácia atacante

Alguns treinadores e comentadores defendem que só se pode treinar o processo atacante no sentido da dinâmica e da criação de oportunidades e que depois a concretização, a finalização, não se treina, dependendo do jogador e do momento. Eu percebo o argumento mas não estou totalmente de acordo. Há aspectos que influenciam fortemente a probabilidade da bola entrar ou não. Um é a fluidez do jogo atacante. Se as bolas que chegam à zona de definição são já muito em esforço, a probabilidade de ser golo diminiu. Se resultam de um processo atacante bem oleado e chegam com mais naturalidade, o índice de concretização aumenta. Por outro lado, claro que os avançados podem e devem treinar a concretização e o remate. Eusébio fazia-o, Ronaldo idem. Um outro aspecto ainda é a tranquilidade. Se a equipa joga sobre brasas vai falhar mais, ao passo que se os processos estão consolidados e há mais segurança no que se faz, vai-se marcar mais. Por isso penso que podemos melhorar neste capítulo.

f) discurso / comunicação

Bruno Lage teve uma mensagem positiva e que se louva ao chegar ao Benfica, apelando à união, ao benfiquismo e prometendo trabalho e futebol atacante com os adeptos gostam. Mas isto é um discurso de entrada, não é algo que se possa sustentar ao longo de uma época inteira. Um treinador hoje é também um comunicador. Amorim é muito bom nisto, tem uma certa naturalidade que Lage nunca conseguirá. No entanto o Benfica tem muitos profissionais a trabalhar nesta área. Eles precisam de ajudar o treinador a comunicar de uma forma eficaz e motivadora ao longo de uma época longa de modo a se manter o élan. Não queremos revelar demasiado sobre a forma de jogar com análises demasiado detalhadas que dêem armas aos adversários mas também não se pode só dizer lugares comuns ou coisas redondas. A mensagem tem de ser dirigida de forma a alcançar objectivos pré-definidos e não ir ao sabor do que os média ou os nossos adversários querem. Deve ser proativa e não reactiva.

5. Uma nota final para a arbitragem. É um tema sobre o qual cada vez tenho menos vontade de ou paciência para falar, mas é importante que o Benfica esteja atento. Vejo os árbitros cada vez mais "simpáticos" para com o Sporting, a "darem" penalties "suaves", muito facilmente, e poucos cartões aos seus jogadores e muitos aos adversários. Com o Porto as coisas são semelhantes. Já em relação ao Benfica parece continuar a existir um estigma e um receio grande em que possa ficar a imagem de que estão a beneficiar o Benfica. Pouco mudou nos últimos anos. Os suspeitos do costume ajudam à festa: a SportTV e a imprensa desportiva continuam a ter um viés anti-Benfica, isso é absolutamente indiscutível. Como o combater? Nas instâncias relevantes da Liga e Federação, mas também através da comunicação. O Benfica tem de saber usar melhor o poder que os seus adeptos lhe conferem. Não queremos ser beneficiados mas não podemos aceitar ser constantemente prejudicados.