Segundo alguns, o benfiquismo está em crise. Há uma certa orfandade de um sentimento clubista que se diluiu face a desilusões e à erosão do tempo presente, dominado pelo imediatismo e consumismo. A era do vazio, segundo Lipovetsky.
Há uma certa dose de verdade nessa avaliação: o tempo do amor à camisola, que coincidiu com as conquistas europeias do Benfica, dificilmente voltará. Os atletas hoje jogam por regra onde lhes pagam mais e raramente ficam num clube por mais de 3 anos, especialmente num clube de uma liga menor, como é o caso da portuguesa. Isso dificulta a manutenção de uma identidade. Paralelamente, os adeptos são cada vez mais impacientes e intolerantes e o futebol é o escape da monotonia do dia a dia. Passam da idolatria ao ataque muito rapidamente, quase de um dia para o outro. E atenção que não estou a dar lições de moral a ninguém, até porque não me ponho de fora da massa geral de adeptos e não sou de modo nenhum imune a esta forma de estar.
Mas se há alguma mensagem que eu quero passar, é a de que num momento como estes devemos valorizar o esforço e dedicação dos jogadores e reconhecer os pontos altos da época. O golo de Pavlidis contra o Sporting é um momento quase poético de futebol. O seu hat trick contra o Barcelona é algo quase épico. A dedicação de Otamendi, um jogador que tem 37 anos e tantos jogos nas pernas, é de reconhecer e apreciar. Claro que ganham muito dinheiro, mas se achamos que esse é um critério para desqualificar o empenho dos jogadores, então não vale a pena ver futebol.
Ser benfiquista é ter um espírito vencedor, a chama imensa de acreditar e lutar sempre, com lealdade, até ao último minuto de cada jogo, com raça, pela vitória. É estar com o clube nos bons e maus momentos, nunca desistir. Quando ganhamos, festejar como ninguém. Quando não ganhamos - o Benfica nunca perde - saber aceitá-lo com desportivismo e estar ao lado dos nossos, com o mesmo benfiquismo de sempre.
PS - o golo contra o Sporting foi marcado por Akturkoglu, a meias com um defesa do Sporting. Mesmo assim optei por não corrigir o texto, porque aquele é realmente um golo criado por Pavlidis, num momento quase sublime de benfiquismo.