sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

A defesa de papel - Weigl e Taarabt

Mais uma derrota (neste caso no conjunto da eliminatória) mais um jogo de terror para a defesa do Benfica, mais três golos sofridos.

O momento do Benfica é mau e não se recomenda. Mas como explicar o que está a acontecer? Quais as causas?

A primeira realidade indesmentível é que quando joga com equipas mais fortes o Benfica por regra empata ou perde. Este ano perdeu os dois jogos com o Porto, com o Braga venceu um e perdeu outro; na Liga dos Campeões perdeu 3 jogos, empatou um e ganhou dois e na Liga Europa empatou um e perdeu outro. No total temos 7 derrotas, dois empates e apenas três vitórias. Ou seja, ao nosso nível (ou ao nível a que aspiramos) temos no presente ano uns míseros 16,6% de vitórias.

Portanto, tendo o Benfica jogado recentemente na Liga Europa, com o Porto e com o Braga é "normal", segundo estes padrões, que tenha perdido a maioria e não tenha ganho nenhum. Quando Bruno Lage diz que fizemos um jogo "à Benfica" ou quando Rúben diz que "fizemos um bom jogo" estão no fundo a aceitar a "normalidade" deste estado de coisas.

Mas isto não explica tudo. A verdade é que a partir de dada altura começámos a sofrer golos e a conceder oportunidades aos nossos adversários, mesmo os mais frágeis, como não acontecera até ali. Isto não começou a acontecer há muito tempo. Há um mês atrás tínhamos acabado de vencer dois jogos fora seguidos (um deles o Sporting), mantínhamos 7 pontos de avanço e tudo parecia ir bem...


O primeiro jogo em que os problemas foram evidentes foi o Benfica-Rio Ave para a Taça de Portugal, disputado a 14 de Janeiro. O Benfica vence por 3-2 na Luz com muitas dificuldades. Depois ainda há dois jogos (os referidos acima) em que não sofremos golos (vitórias em Paços e em Alvalade por 2-0) e a partir daí é o descalabro:  desde 31.01 até 27.02 o Benfica disputa 8 jogos e consegue apenas 3 vitórias! Concede 3 derrotas e empata dois dos jogos (que lhe valem uma qualificação para o Jamor e uma eliminação da Liga Europa).

Quadro 1 - Fonte: "A Bola".

Mas o mais revelador aqui são os golos sofridos: 14 golos. Uma média de quase dois por jogo... E isto com Vlachodimos ainda a fazer grandes exibições... Curiosamente marcámos exactamente os mesmos 14.

O que aconteceu? Os defesas deixaram de saber jogar?

Não: o meio campo deixou de ser pressionante e de proteger a defesa. Porquê? Porque Bruno Lage decidiu desfazer a dupla Gabriel-Taarabt (que se estabelecera aos poucos, após diferentes tentativas e diferentes esquemas de jogo) e introduzir Weigl na equipa.

Para que não hajam dúvidas, aqui estão os 9 jogos imediatamente antes da entrada de Weigl no 11:

Quadro 2. Jogos imediatamente antes da chegada de Weigl.


Nestes 9 jogos temos 23 golos marcados e 7 sofridos. 6 vitórias e 3 empates. Note-se bem que nestes jogos estão incluídos dois jogos da Champions, um jogo com o Braga, um jogo em Guimarães e ainda jogos da Taça e Taça da Liga em que não jogámos com os principais titulares.

Ou seja, os números não deixam dúvidas: a entrada de Weigl na equipa coincidiu com o descalabro defensivo da equipa e também com perda de rendimento ofensivo. Isto é um facto. Logo na sua estreia Weigl é substituído com o Benfica a perder em casa com o Aves (último classificado...) e é só após a sua saída que o Benfica dá à volta ao jogo. No quadro abaixo está o registo dos primeiros jogos com Weigl:


Como referi acima, o Benfica-Rio Ave foi  (pelo menos para mim) o primeiro grande sinal de preocupação. O Benfica venceu mas não convenceu e concedeu inúmeras oportunidades ao adversário. Mas depois ainda ganhámos em Alvalade e Paços - sem sofrer golos - pelo que se diria que as coisas estavam novamente bem e que não se podia imputar a Weigl a diferença (para pior) do rendimento da equipa.

E de certa forma isso é verdade. Depois de no jogo com o Rio Ave dar a titularidade a Weigl e Taarabt, em Alvalade e Paços Lage aposta na dupla Gabriel-Weigl. Parece encontrar-se um novo equilíbrio e a segurança defensiva regressa. No jogo seguinte (ver o primeiro quadro), Lage volta à fórmula Weigl-Taarabt e voltamos a sofrer dois golos. Depois com o Famalicão jogam Gabriel e Taarabt, sofremos mais uma vez dois golos e o brasileiro lesiona-se.

Daí para cá é o que se sabe (e consta do quadro 1), praticamente sempre com a dupla Weigl-Taarabt. Nos últimos jogos houve um único jogo em que não sofremos pelo menos um golo. Foi o Gil Vicente-Benfica (um jogo difícil, num terreno em que o Porto perdeu e o Braga de Amorim empatou). O Benfica ganhou por 1-0. Quem jogou? Samaris e Weigl, com Taarabt no apoio ao ataque.

A evidência está à vista: a dupla Weigl-Taarabt não funciona. A equipa fica completamente desequilibrada e abrem-se autoestradas para a nossa baliza, expondo os nossos defesas (que é óbvio que não estão num bom momento). Neste momento, com a lesão de Gabriel, impõe-se em absoluto a entrada de Samaris na equipa, seja para jogar com Florentino seja com Weigl (com Taarabt penso que não, porque se poderiam manter os desequilíbrios que só Gabriel tem a capacidade de disfarçar quando o marroquino ali joga).

Agora do que não tenho dúvidas é de que se Bruno Lage continuar a insistir na sua teimosia e jogar com a dupla Weigl-Taarabt no meio campo vamos perder o campeonato e a Taça de Portugal.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O caso Marega

O Porto ganhou e ficou a um ponto do Benfica, quando há apenas uma semana atrás podia ter ficado a 10... mas a principal notícia da noite de ontem, que vai dar origem a intermináveis debates televisivos e crónicas jornalísticas foi o caso dos insultos a Marega.


Marega marcou um golo e, na opinião dos adeptos do Vitória, celebrou de forma "excessiva", atendendo a que é um ex-jogador do clube.

Seguiram-se insultos, vaias e até cadeiras atiradas para o relvado. Marega agarrou numa cadeira e provocou os adeptos, fazendo o ambiente aquecer ainda mais.

Depois o público começou a vaiar Marega de cada vez que a bola ia na sua direcção e, no meio dessas vaias, foram também audíveis sons a imitar macacos, uma manifestação de um racismo que não tem cabimento e já não deveria existir nos estádios.

O maliano indignou-se e decidiu abandonar o campo. Entre o golo e a sua decisão passaram-se aproximadamente 8 minutos.

Estes são os factos. Vamos agora à minha opinião sobre eles.

Os urros que se ouviram (não é possível quantificar quantas pessoas terão participado neles, até porque o som das vaias não é assim tão distinto - a diferença é que um é contínuo e o outro interrompido) são uma coisa indigna, inaceitável e absolutamente condenável. Sobre isso acho que todos concordarão, com excepção dos racistas autênticos, tipo nazis ou skinheads.

Só que eu aqui coloco outra questão: e um estádio cantar em uníssono "SLB, filhos da p...?" É bonito? Merece ser aplaudido? Ou merece ser condenado? Colocar bonecos enforcados em pontes, é bonito?

Fazer, como acontece em muitos estádios (e lamentavelmente também no da Luz) um coro antes do guarda-redes bater a bola e, nessse momento gritar "filho da p...", é muito bonito?

Dir-se-á que são coisas diferentes - e eu concordo que são diferentes. Chamar a uma pessoa macaco por ser negro é pior do que insultar a mãe de outra pessoa simplesmente por ser de outro clube. É verdade.

Mas não podemos ignorar completamente uma das manifestações como coisa normal e rasgar as vestes em indignação, com  discursos moralistas, na outra.

Até por outra razão: a base destes ataques não é o racismo. A base dos ataques é o fanatismo clubista que traz ao de cima as paixões mais básicas e baixas dos adeptos.

Isto percebe-se facilmente quando se verifica que Marega nunca foi alvo de insultos racistas pelos adeptos do Guimarães quando era jogador do clube. O racismo é uma forma de atacar a pessoa por ser de outro clube, que não difere substancialmente do "filho da p...". A "desumanização" do adversário é uma realidade, o racismo é apenas um instrumento desse objectivo. Nenhum adepto (ou apenas uma minoria ínfima deles) é racista para com os seus atletas.

A terminar, há que ter memória e recordar que ainda recentemente o Porto foi acusado pela UEFA de racismo num jogo contra o Young Boys da Suíça. Na altura o clube desvalorizou e negou.

O mesmo (ou pior) já tinha aliás acontecido uns anos antes, nomeadamente em 2012. Na altura o Porto defendeu-se dizendo que a UEFA tinha ouvido mal. Que o que os adeptos gritavam era "Hulk, Hulk, Hulk"...

Notícia "Correio da Manhã" : https://www.cmjornal.pt/desporto/detalhe/fc-porto-diz-que-canticos-racistas-eram-gritos-por-hulk-com-video

Notícia "Público": https://www.publico.pt/2012/02/18/jornal/city-queixase-a-uefa-de-racismo-fc-porto-defende-que-gritos-eram-para-hulk-e-kun-24016967


Racismo é feio, não devia ter lugar nos estádios. Mas eu digo não também à hipocrisia e falso moralismo.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Sem desculpa

O Benfica perdeu numa semana 6 pontos, teve duas derrotas e um empate (este para a Taça e com muita sorte) e poucos acreditam neste momento no título.

No futebol tudo muda numa semana. Ainda há não muito tempo, Sérgio Conceição colocava o seu lugar à disposição e falava-se de crise no Porto.

Há exactamente uma semana podíamos ter alcançado 10 pontos de vantagem e praticamente colocar um ponto final na questão do campeão. Mas acabámos por perder, depois veio a exibição medíocre em Famalicão e hoje nova derrota.

No entanto há muito a apontar, muitos erros, demasiados tiros nos pés. São tantos que até alimentam teorias da conspiração segundo as quais sempre que o Porto está à beira de cair numa crise profunda o Benfica trá-lo de volta à vida...

Foto Lusa


Os erros são visíveis. O primeiro prende-se com Samaris. Toda a gente sabe da importância do grego para a conquista do campeonato no ano passado. Foi simplesmente fundamental. É um jogador feito para os grandes jogos, que sente a camisola, tem fibra, não se intimida. É um jogador que conhece muito bem aquela posição e que assegura um enorme equilibrio à equipa.

Sem que ninguém percebesse porquê, Bruno Lage decide ostracizar o jogador depois do jogo com o Porto na Luz (no qual aliás já não jogou a segunda parte)... Esse é o primeiro erro que aliás é persistente.

Depois houve uma aposta insistente em dois avançados que não funcionavam, um dos quais já não está sequer no Benfica. Finalmente Vinícius impôs-se mas Lage continua a insistir em Seferovic que já se percebeu que não tem qualidade suficiente e que não acrescenta rigorosamente nada vindo do banco.

Há coisas que não se percebem. Tal como Samaris, Florentino também de um dia para o outro desapareceu completamente da equipa e nem opção é no banco na maioria das vezes. Simultaneamente vai-se contratar Weigel de quem ainda não se viu absolutamente nada que justificasse nem a contratação (20 milhões...) nem ter tirado o lugar a quem era titular. Isto para já nem falar do que aconteceu na Liga dos Campeões.

Repare-se, não estou a criticar opções pontuais, para as quais o treinador pode ter razões que nós desconhecemos. Estou a criticar opções que já mostraram não funcionar ou a insistência em excluir jogadores que já mostraram ter rendimento.

Como por exemplo as substituições no dragão e hoje. Como é possível tirar, hoje, Cervi para colocar o nulo Seferovic ou, nos dois jogos, colocar três pontas de lança e bombear bolas sem o mínimo perigo? É que nem meia jogada de perigo criámos no conjunto dos dois jogos...

Ver o Benfica jogar neste momento é penoso. A nossa defesa é um passador, o meio campo quase não existe e o ataque é ineficaz, vivendo apenas do génio de Rafa ou da eficácia (que hoje não existiu) de Vinícius.

Lage precisa rapidamente de arrepiar caminho das suas teimosias e concentrar-se mais no seu trabalho. Admiro o seu discurso positivo e a sua coerência e desportivismo, mas isso não chega nem pode substituir as ideias que são necessárias em termos futebolísticos. O futebol do Benfica carece neste momento de muita coisa, desde a segurança defensiva à criatividade atacante, passando pelo controlo do meio campo. E isso é responsabilidade do treinador.

Já agora, igualmente lamentável foi assitir aos comentários na Btv após o jogo. Segundo os comentadores, Lage explicou tudo muito bem e o Benfica realizou uma grande exibição... Confrangedor.


PS - Taarabt não é solução para o meio campo. É um bom jogador, que verticaliza bem e sai bem da pressão mas não pode jogar ali. Não é um jogador para um meio campo a dois. Não equilibra o meio campo.
PS 2 - Gabriel é um jogador absolutamente fundamental para o Benfica. A sua lesão, da qual obviamente todos esperamos que possa recuperar totalmente, tão cedo quanto possível, é uma notícia desastrosa para o Benfica. Até por isso, a entrada de Samaris é essencial e urgente.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Não pode valer tudo

O Benfica voltou a perder no dragão, num jogo em que deveríamos ter cometido menos erros mas que fica também marcado por casos graves de arbitragem.
Tais casos são conhecidos e não vale a pena estar aqui a insistir. O penalti para mim é o mais escandaloso, porque não se percebe como é que um jogador pode jogar deliberadamente a bola com a mão quando está de costas e não vê a trajectória dessa mesma bola. Isto já para nem falar da falta de Soares nas costas de Ferro.
No entanto culpar Soares Dias é simplista. O problema é mais vasto, como se vê pelo VAR. O que me conduz ao tema do artigo. Não pode valer tudo.
O ambiente criado à volta destes jogos é tenso, há muita rivalidade e alguma hostilidade. Até aí compreendemos. Lisboa é a capital, o Benfica é o maior clube nacional e para equilibrar estas contas, o clube mais bairrista e regionalista tem que usar dos trunfos de que dispõe, nomeadamente criando um ambiente menos hospitaleiro.
O problema é quando se ultrapassam os limites - e isso acontece em todas as visitas do Benfica. São ameaças de morte, são agressões a adeptos, são tarjas gigantes na bancada com insultos e insinuações, são bolas de golfe, são apedrejamentos, etc, etc.
Ou seja, situações que extravasam completamente o âmbito de uma rivalidade normal e resvalam para a violência e a criminalidade organizada.
O problema não é de hoje, mas cada vez é mais visível aos olhos de todos e como tal cada vez menos tolerável numa sociedade que se pretende civilizada.
Eu não sou nenhum politicamente correcto e acho bem que o futebol tenha uma boa dose de virilidade. Agora, isso não pode significar que o Benfica vá ao Porto para ser o cordeiro sacrificial, ou um saco de pancada para aliviar as frustrações de adeptos fanáticos e continuar a alimentar claques delinquentes e criminosas.
Porque se assim for, se estas são as regras do jogo, o que deve impedir o Benfica de retribuir na mesma moeda, aquando das visitas do Porto?
Eu pergunto-me até : o que acontecerá se, como é bem possível, Benfica e Porto se encontrarem no Jamor? Está a ser alimentado um monstro que pode vir a ter consequências gravíssimas.
Claro que dentro do campo, apesar do Benfica poder ter, aqui ou ali, feito mais, este ambiente infernal deu frutos. Os árbitros estavam altamente pressionados - pela bancada e o banco do Porto - e decidiram quase sempre pela equipa da casa. Mas eu até certa medida compreendo : eles também são humanos, têm as suas famílias e inclusive já foram ameaçados.
Eles simplesmente não têm condições para arbitrar estes jogos.
Aliás o que aconteceu este ano foi a repetição do que aconteceu nos anteriores. Este ano Marega e Pepe cedo agrediram Taarabt, que se sabe ser um dos mais influentes jogadores do Benfica. No ano passado Pepe tentou logo de início provocar e intimidar João Félix. Há dois anos, Filipe teve uma entrada assassina sobre Jonas e se continuarmos a recuar chegamos ao infame Paulinho Santos e às suas múltiplas agressões que chegaram a partir o maxilar de João Vieira Pinto...
Porque é que eles fazem isto? Porque podem. Porque sabem que os árbitros vão permitir.
Repare-se, o Porto não tem princípios nem limites : desde fruta, café com leite, conselhos matrimoniais, invasões dos centros arbitrais, ameaças de morte, já vimos que ali vale tudo ; com a Liga miserável que temos, subserviente ao Porto (basta lembrar a felicidade do seu presidente com as vitórias do Porto quando era árbitro, que até beijinhos dava aos  jogaseusdores) nada é feito para punir estes comportamentos ; pelo que resta apenas uma intervenção do governo. Ou então, se nada acontecer, se nada for feito, daqui a não muito tempo estaremos a lamentar algo de bem mais grave.
Para ganhar, não pode valer tudo. Se não, isto deixa de ser um desporto e passa a ser um combate de milícias e uma competição de batoteiros.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Assim, não

Continua ininterrupto o ciclo negro do Benfica na Liga dos Campeões, apesar das declarações de vontade de presidente e treinador(es) de querer mudar este triste estado de coisas.

Que começa, diga-se, logo nas bancadas, com um aspecto desolador para um jogo de Liga dos Campeões. Qualquer jogo da Liga Portuguesa, com um qualquer Paços desta vida (sem desprimor para o clube), tem muito mais espectadores, o que devia levar os dirigentes a repensar os preços tanto dos bilhetes como dos redpasses.

Quanto ao jogo propriamente dito, não posso concordar com as escolhas de Bruno Lage. São demasiados jogadores com falta de ritmo e/ou experiência ao mesmo tempo em campo. Isto independentemente do valor individual de cada um e até das exibições realizadas que não vou aqui avaliar. No Benfica quando se perde, sobretudo em casa, não faz qualquer sentido falar de boas exibições individuais. Também não o faz estar a apontar individualmente culpados quando a falha é sobretudo colectiva e portanto em primeira análise do treinador.

Para além disso, do escalonamento do 11, o posicionamento dos jogadores não foi o melhor. Desde o início que nos senti muito inseguros no jogo, sendo bastante evidente que qualquer aceleração do Leipzig criava de imediato situações de perigo na nossa baliza. Não estávamos nem confortáveis no jogo defensivamente nem minimamente perigosos no ataque. Aí a pobreza foi franciscana.

Já não é aliás a primeira vez que o Benfica não tem propriamente antíodoto para equipas que pressionam sobre todo o terreno. Taarabt foi conseguindo libertar-se a espaços, gerando aqui e ali desequilíbrios, mas quando a bola entrava no último terço simplesmente não tínhamos acutilância: Tomas estava muito sozinho na frente e os extremos demasiado recuados (ou cobertos) para poderem dar opções.

Recorde-se que no ano passado era o Benfica quem pressionava os adversários, recuperando rapidamente a bola e saindo depois com grande velocidade para o ataque. Mas neste momento não há Gabriel - jogador insubstituível neste plantel - nem Félix, nem Jonas que, mesmo com reumático, com a sua inteligência criava espaços onde eles pareciam não existir.

Este ano a dinâmica só apareceu a espaços, sendo que as opções alternativas para os jogadores que referi estão muito longe de assegurar o desejável. Temos vivido muito das acelerações de Rafa e da qualidade de Pizzi, mas em jogos de mais elevada exigência, nomeadamente física, e com marcações muito apertada o rendimento destes baixa consideravelmente.

Não tenho soluções milagrosas mas como adepto esperava muito mais e melhor esta noite. Voltámos às sendas das derrotas na CL, o que começa já a enjoar. Uma derrota que aliás compromete fortemente o apuramento. Na CL é preciso vencer os jogos em casa e procurar arrecadar alguns pontos fora. Com um início destes temo o pior. Assim, não.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Resposta categórica

No futebol tudo pode mudar em apenas uma semana. Depois de um campeonato histórico com 5 vitórias em 6 jogos contra Porto, Sporting e Braga, a que acresceu a conquista da Supertaça com um resultado esmagador de 5-0 sobre o rival, bastou uma derrota na Luz contra o Porto para Bruno Lage já ser um amador e Pizzi ser o maior enterra do Benfica.
Não fiquei menos irritado com essa derrota do que qualquer outro adepto, mas no que não alinho é em discursos demagógicos e irresponsáveis que resultam de falta de maturidade ou servem agendas de uma determinada oposição que está mais preocupada em chegar ao poder do que com o bem do Benfica.
É evidente que vencedo o Porto teríamos dado um golpe fortíssimo naquele clube e um passo muito grande para a conquista do presente campeonato. Conceição provavelmente não continuaria e instabilidade seria enorme para o lado das Antas. Poderíamos e deveríamos ter enfrentado esse jogo de outra forma mas nem sempre as coisas correm como queremos. O importante nessas situações é tirar as ilações devidas e é isso que espero que tenha acontecido.
A vitória e a exibição em Braga indicam que isso aconteceu. Nunca podemos pensar que as vitórias acontecem "naturalmente". É preciso lutar por elas sem triunfalismos antecipados - e idiotas - ou sobrancerias e vedetismos despropositados.
O Benfica voltou a fazer um bom jogo e a marcar muitos golos, ainda que dois deles tenham tido intervenção direta dos defesas adversários.
Temos agora uma pausa para corrigir algumas coisas que não estão bem e trabalhar na recuperação de alguns lesionados, capítulo em que continuamos a ser muito penalizados.
Temos um plantel equilibrado e talento ainda por explorar. Acredito que Raul de Tomas pode fazer muito mais e também que Vinícius tem grande potencial, nomeadamente uma velocidade e poder físico que o torna único no plantel.
Termino voltando ao princípio: os adeptos e sócios precisam de crescer um bocadinho; nada justifica os ataques e até insultos dirigidos aos nossos por uma simples derrota que se segue a uma série épica e irrepetível de vitórias e uma recuperação que nos deu um dos títulos mais saborosos de sempre.

domingo, 25 de agosto de 2019

Não se deitam foguetes antes da festa

Já aqui escrevi múltiplas vezes acerca da crónica incapacidade do Benfica em jogos contra o Porto.
Mesmo nos últimos anos, nos quais vencemos 5 campeonatos em 6 e portanto dominámos quase por completo o panorama nacional, o Porto tem um registo melhor do que o Benfica... na nossa casa.
É confrangedor e roça mesmo o misterioso. A nossa equipa parece que se amedronta, ao passo que o Porto se agiganta.
No entanto a explicação para esta derrota talvez seja um pouco diferente e de alguma forma até a oposta: desta vez perdemos por arrogância e sobranceria.
Antes do apito inicial parecia que já tínhamos ganho e que o Porto estava ali para servir de bombo da festa: houve fogo de artifício e faixas alusivas ao 38... Isto quando estamos em Agosto, apenas na terceira jornada.
Um ambiente despropositado, que influenciou o desenrolar do jogo.
O Porto cerrou os dentes e enfrentou o jogo como um desafio crucial, disputando os duelos sempre nos limites. Aceitou o papel de não favorito, percebeu que não podia ganhar no talento mas apenas na entrega e no rigor tático e executou o seu plano de modo quase perfeito.
Já o Benfica entrou de forma altiva, convencido de que lhe bastaria conter a previsível entrada forte do Porto para no momento certo impor o seu ritmo e ferir o adversário. O problema é que o Porto foi ganhando cada vez mais confiança e emperrando sempre o jogo ofensivo do Benfica, pressionando bem alto a nossa defesa, manietando muito bem o nosso meio campo (quase sempre em inferioridade numérica), cortando constantemente as nossas linhas de passe e anulando os nossos avançados (que, diga-se, são praticamente inofensivos).
Cedo se percebeu que só o talento de Rafa, Pizzi ou Grimaldo poderiam conseguir suprir as deficiências colectivas, mas os dois últimos estiveram num péssimo plano e Rafa sozinho não poderia resolver.
O Porto marcou logo após o seu primeiro lance de perigo (e primeiro remate à baliza), no canto daí resultante.
A reacção do Benfica surgiu apenas na segunda parte, quando durante uns 15 a 20 minutos conseguimos encostar o Porto atrás, com Taarabt a conseguir impor alguma velocidade ao nosso jogo ofensivo. Nessa altura o Porto recorreu ao anti-jogo com Pepe literalmente a gozar com os espectadores perante a complacência do árbitro. A dinâmica que pretendíamos foi assim quebrada, mas diga-se que também não fomos capazes de criar oportunidades claras e que o contra ataque do Porto nos colocou sempre em sentido, especialmente com a autoestrada que se abriu com a saída de Samaris.
Bruno Lage terá que reflectir sobre o que se passou e encontrar soluções diferentes. Esta dupla de avançados não funciona e assim todo o jogo da equipa fica emperrado. Também o meio campo neste jogo foi dominado pelo adversário, mostrando dificuldades tanto a construir como a defender. No sector recuado houve múltiplas falhas, tanto ao nível dos passes errados e perdas de bola como dos posicionamentos, com jogadores do Porto a aparecerem várias vezes nas suas costas, apenas com Vlacodimos à sua frente. Não pode ser. As mudanças mais óbvias passam pelo desfazer desta dupla de avançados e com a entrada de Vinícius no 11. O brasileiro é muito mais rápido, agressivo e acutilante do que qualquer dos avançados titulares.
No entanto há mais mudanças necessárias, nomeadamente ser intolerante com a complacência e a sobranceria, no plano mental, e encontrar novos equilíbrios pós-Jonas e Félix que claramente ainda não existem apesar das goleadas ao Sporting e a vitória na ICC terem dado (erradamente) a impressão contrária.