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segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A nova vida de Bernardo Silva (e a genialidade de Guardiola)

 Com a contratação de Grealish por uns exorbitantes 117, 5 Milhões de Euros a continuidade de Bernardo Silva no Manchester City foi colocada em causa e especulou-se na imprensa portuguesa sobre a possibilidade de uma transferência para Espanha.

É preciso ver que já na época passada Bernardo não foi titular indiscutível. Com a recuperação de De Bruyne (jogador muito massacrado por lesões, em grande parte por excessiva violência dos adversários - incluindo Palhinha), Bernardo passou a estar mais tempo no banco. É preciso ver que podem jogar naquelas posições também Riyad Mahrez, Phil Foden ou Sterling. Portanto a concorrência é enorme. E a verdade é que Bernardo é um jogador com muito menos explosão do que qualquer um dos outros referidos.

Diga-se que Bernardo foi um jogador muito útil no sistema do City na época anterior. Ou seja, em 19/20. Nessa altura o talentoso português sacrificou-se pela equipa, sendo importante no tiki-taka então praticado, pela sua enorme qualidade de passe e recepção mas também a pressionar os adversários, a recuar e a fechar espaços. Acontece que com isso Bernardo foi perdendo um pouco do perfume do seu futebol. No Europeu fui critico da prestação de Bernardo Silva porque o jogador fosse por razões físicas ou psicológicas raramente era capaz de ultrapassar os adversários e ir à linha, ou criar rupturas. Basicamente recebia a bola dava dois passos em frente e depois rodopiava passando a bola novamente para trás ou para o lado.

Ora Bernardo aparece esta época rejuvenescido. Mais leve, mais confiante com mais bola e mais capacidade de enfrentar o chamado 1 para 1, Bernardo está a ter uma nova vida no City, apesar da concorrência ser ainda mais forte. Isso deve-se também a um novo posicionamento e uma nuance táctica do sistema de Guardiola. Bernardo aparece agora mais no meio campo, como interior, onde tem mais bola e onde pode olhar para o jogo com outra perspectiva, ao invés de estar no triângulo da frente onde estava a ter mais dificuldade em desbloquear (é preciso ver que contra o City as equipas se fecham muito atrás).

Isto tem-se reflectido de forma muito positiva no futebol de Bernardo e do City como um todo. O jogo entre Liverpool e City (2-2) foi dos melhores que tenho visto e Bernardo Silva foi um dos que esteve em melhor plano. Há uma jogada de Bernardo que é absolutamente genial e mostra a melhor versão do jogador: pegando na bola a meio do seu meio campo, ele ultrapassa literalmente meia equipa do Liverpool, incluindo Fabinho e Van Dike e com uma assistência magistral coloca a bola entre dois defesas para deixar Foden na cara do guarda redes. O avançado inglês ficou com pouco ângulo mas podia e provavelmente devia ter feito golo.

Esta nova forma de jogar, em que Bernardo tem mais bola e mais possibilidade de contruit a partir de trás, progredindo com a bola controlada até à entrada da área é mérito evidente do jogador, da sua visão, da sua capacidade futebolística e qualidade técnica, mas também do seu treinador. Guardiola ficou a ganhar à frente, onde Grealish, apesar de ainda não estar a carburar muito, tem mais capacidade do que Bernardo para resolver naquela zona entre a quina da grande área e o golo mas ficou também a ganhar e muito no meio campo onde Bernardo dá outro perfume, outro toque poético ao futebol do City que assim assume outra dimensão. Menos tiki-taka mas mais profundidade, mais imprevisibilidade.

Isto mostra a capacidade de Guardiola para evoluir o seu sistema e para inovar, não estando preso a esquemas rígidos e ideias feitas. Nisto tenho que o contrastar enormemente com Mourinho.

Gostaria de não ter que o dizer e claro que gostaria que Mourinho tivesse sucesso. Mas a verdade é que Mourinho ficou parado no tempo e não tem neste momento golpe de asa para sair do espartilho táctico em que se colocou e que impõe às suas equipas. É que Mourinho pensa o jogo a partir de uma visão negativa, pretendendo em primeiro lugar anular o adversário.

Por exemplo, ontem contra a Juventus, o que se viu foi uma Roma cuja preocupação primeira (e quase última) foi a segurança defensiva, mesmo quando estava a perder. Pode-se dizer que o adversário é teoricamente superior, mas isso não impede um treinador de tentar ganhar o jogo. Veja-se a Atalanta: tem uma ideia de jogo positiva, tenta sempre ganhar. Não o conseguirá sempre mas, com recursos limitados, bate-se com todos. Já Mourinho preocupa-se em defender, em anular a outra equipa, em tapar os espaços para a sua baliza (algo que aliás já não consegue de modo tão efizaz como no passado). Depois tenta "esticar o jogo", aproveitando a subida da equipa adversária. Esta estratégia é extremamente limitada e aliás fez com que Zaniolo, que tinha sempre que correr meio campo desde que recebia a bola apenas para se acercar da grande área adversária, tivesse que ser substituído ainda na primeira parte. 

Mourinho disse que a Roma fez um jogo "extraordinário" e atribuiu ao árbitro "intenções". É verdade que o árbitro esteve muito mal ao assinalar penalty num lance em que a Roma até marca. Sempre ouvi dizer que penalty seguido de golo é golo, mas como as regras estão sempre a mudar já não sei... Depois para piorar as coisas a Roma falha o penalty. Mas isso é uma ilusão: caso tivesse empatado (e não tinha feito nada para o merecer) a Roma voltaria a recuar ainda mais e sofreria o 2-1.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Selecção à espera de um milagre

 

Cristiano Ronaldo tem carregado a selecção neste Europeu. Está na altura de outros jogadores mostarem a qualidade que têm. Bruno Fernandes, por exemplo. Os próprios centrais não têm estado ao seu nível. Imagem de "O Jogo".


O jogo com a Hungria (e outra exibições anteriores) vieram dar-nos esperanças legítimas de alcançar algo de importante neste Europeu. Afinal de contas somos campeões em título e a maior parte dos nossos jogadores são titulares das maiores equipas do mundo. Rúben Dias foi eleito o melhor jogador da Premier League, Bruno Fernandes foi o mais decisivo dos jogadores do United, Jota fez uma época excepcional no Liverpool, como Pepe no Porto, Palhinha no Sporting e ainda as revelações Nuno Mendes e Pedro Gonçalves. Temos jogadores com passado na selecção, que já deram mostras da sua capacidade no passado, desde Moutinho a Danilo e William. Temos a qualidade de jogadores como Renato, Bernardo, João Félix. Isto para além de Sérgio Oliveira, Rúben Neves, Rafa ou André Silva. E, claro, temos Cristiano. 

Ou seja, temos matéria prima, uma selecção bastante nivelada por cima, e um treinador que já alcançou feitos históricos.

O primeiro problema prendeu-se com a ausência forçada de Cancelo. Isto porque Cancelo tem uma capacidade atlética, uma velocidade e um andamento que Nélson Semedo neste momento está muito longe de possuir. Cancelo era um jogador diferenciado nesta selecção, dáva-nos uma capacidade de carregar jogo pela direita e fazer rupturas que é muito difícil de substituir.

O segundo problema prende-se com as características de Fernando Santos: as mesmas características que nos conduziram ao sucesso estão agora a "amarrar" a selecção. Isto porque o nosso treinador é por natureza conservador e cauteloso, tendo encontrado uma fórmula que funcionou até aqui (excepção feita ao Mundial 2018) mas que parece agora mostrar todas as suas limitações.

Em 2004, após a derrota com a Grécia, Scolari operou uma revolução no 11, tendo os "consagrados" dado lugar a jogadores mais novos que tinham outra capacidade física e outra fome de vitórias.

Em 2021, a selecção começou bem, pelo que não parecia haver necessidade de mudar. No entanto a derrota pesada e sobretudo a forma como a selecção foi cilindrada pela Alemanha expuseram demasiado as fragilidades de jogadores como William, Danilo e, a partir daí, dos laterais - e até dos centrais. Faltou - e muito - capacidade física e atlética à nossa equipa. Sobretudo no plano da velocidade e da agressividade, Portugal foi altamente deficitário. Chegámos sempre demasiado tarde e andámos sempre a correr atrás da bola e dos jogadores alemães que basculavam o jogo a seu belprazer, colocando bolas nas costas dos nossos laterais e depois na zona de finalização com a maior das facilidades.

Ou seja, uma circulação de bola muito dinâmica e jogadores fisicamente poderosos e rápidos a executar, colocaram a nu as limitações dos jogadores (e sistema) demasiado posicionais de Portugal.

Agora Santos ficou colocado perante um dilema: por um lado, mudar tudo na última jornada da fase de grupos, colocando em campo jogadores que não têm quaisquer rotinas de jogar juntos, é um risco muito grande. Por outro lado, não mudar nada, especialmente depois de todo o mundo ter visto quais as nossas fragilidades é receita quase certa para o fracasso.

É evidente que Palhinha e Renato Santos teriam tido desde o início do jogo contra a Alemanha uma capacidade de disputa da bola e do jogo a meio campo que William / Danilo nunca tiveram. Até Sérgio Oliveira e Moutinho têm mais capacidade de choque e mobilidade do que esta dupla.

No entanto apenas Renato entrou na segunda parte (para o lado direito do meio campo) e, como já referi, é uma aposta arriscada colocar este e Palhinha simultaneamente contra a França, jogo que aliás terá características diferentes do contra a Alemanha.

Depois há a questão dos laterais: Rafael Guerreiro foi demasiado frágil, faria sentido substitui-lo por Nuno Mendes que tem outra dimensão física. (Nélson foi mais vítima do sistema do que propriamente culpado na minha opinião). No entanto Fernando Santos é conservador e tenho dúvidas que o faça.

Outra coisa que já poderia ou deveria ter sido feita era tentar soluções alternativas para o lugar de Bruno Fernandes que tem passado completamente ao lado dos jogos. Claro que é um grande talento e compreende-se que tenha entrado como titular, mas nesta fase e face à ausência de rendimento já deveriam ter sido testadas mais opções. Pedro Gonçalves (Pote) fez uma grande época, foi o melhor marcador do campeonato e é um jogador muito bom a furar as linhas defensivas adversárias, a aparecer onde não se espera e depois a finalizar. Bernardo pode jogar ali, assim como o próprio Félix, este com outras características.

Em suma, Fernando Santos tem estado bastante agarrado, quase amarrado às suas ideias originais e tem dado pouco espaço para outros jogadores se afirmarem. Essa é a sua fórmula, que trouxe sucesso, pelo qual todos os portugueses lhe devem estar muito gratos. No entanto, se era para jogarem sempre os mesmos para quê convocar tantos médios?

Parece-me que é chegada a altura de constatar algumas evidências e fazer algumas alterações.

Dito isto, seja qual for a equipa, será difícil alcançar um resultado positivo contra a França. É o campeão do mundo, tem um meio campo e um ataque de luxo e fisicamente é mais poderosa do que Portugal. Especialmente nesta fase em que estamos muito pressionados e com a confiança muito abalada por uma derrota que poderia ter sido ainda mais humilhante se a Alemanha não tem abrandado (de propósito), é muito difícil não perdermos o jogo.

Com jogadores como Mbappé, Griezman e Benzema, o golo pode aparecer a qualquer momento. Nos últimos jogos a França teve dificuldades em concretizar (apenas dois golos, um marcado pela Alemanha na própria baliza) mas isso pode mudar a qualquer momento. Esperemos apenas que não seja contra Portugal.

Mas acima de tudo esperemos outra coisa: que os nossos jogadores se superem, ultrapassem o trauma da derrota contra a Alemanha e possam inverter a dinâmica negativa criada por esse jogo. Temos que recordar aquilo por onde comecei: somos campeões em título - não o fomos por acaso - e os nossos jogadores estão ao nível dos melhores do mundo. 

É preciso abandonar de vez a mentalidade de pequeninos e abraçar uma mentalidade competitiva, combativa, vencedora. Não podemos voltar a deixar-nos intimidar e amedrontar como aconteceu contra a Alemanha. Para isso Fernando Santos tem também que alterar algumas coisas e dotar a equipa de armas que não tivemos contra a Alemanha. Amanhã é o dia. Se não o fizermos, não haverá outro relativamente ao Europeu e iremos para casa de mãos a abanar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Um Domingo em cheio

Quem diria? Numa jornada em que a partida o Benfica era quem corria mais riscos, acabámos por ganhar pontos aos dois rivais. E isto depois de entrarmos no jogo a perder.

São excelentes notícias, nomeadamente por, como assinalámos no anterior post, na Choupana se ter iniciado um ciclo difícil e importante de jogos e também pelo facto do campeonato agora se interromper durante algumas semanas. Esta folga pontual e temporal dá ao Benfica melhores condições psicológicas para trabalhar no (muito) que a equipa precisa para se consolidar.

Na Madeira o Benfica precisava sobretudo de garantir o resultado. Se isto é verdade para todos os jogos, o que eu pretendo aqui sublinhar é que nesta fase da época, tendo por adquirido que a equipa ainda procura o seu equilíbrio fundamental, sobretudo no meio campo, há que privilegiar a objectividade e o resultado em detrimento da qualidade futebolística.

O Benfica não tem sido muito capaz de ter o controlo do jogo, algo que no ano passado alcançou (dando a dada altura a ideia de que era quase impossível perder um jogo), mas tem vencido. Ontem na segunda parte apostou claramente em manter o resultado - e conseguiu-o.

No entanto isto não pode ser uma estratégia para a época. O Benfica ontem não sofreu na segunda parte mas podia ter sofrido, inclusivamente numa jogada mal anulada por fora de jogo inexistente.

É pois preciso fazer mais e melhor. É preciso sobretudo ter outro controlo do meio campo. Samaris tarda em integrar-se naquela posição tão importante no sistema táctico de Jorge Jesus. Creio que André Almeida seria a melhor solução nesta fase, mas já percebemos que Jesus não apostará nela por razões que desconheço.

Espero que Fedja possa estar de regresso rapidamente. Se não estou em erro, dezembro ou janeiro foram apontados como datas do seu regresso. Esperemos que isso aconteça.

Também Sílvio, quando puder regressar, será um importante reforço para as laterais.

No entanto, para além das questões das peças individuais, é a equipa como um todo que precisa de evoluir harmoniosamente como ainda não acontece. O facto de termos apenas dois jogadores no "miolo" e extremos muito atacantes obriga a compensações e equilíbrios muito precisos, sob pena da equipa ser apanhada completamente em contrapé (como aconteceu em Braga). 

Já tem sido referido muitas vezes que Rodrigo, com a sua grande mobilidade e Lima com a sua grande capacidade de trabalho constituíam uma primeira linha de pressão que este ano desapareceu. Também é uma realidade que havia mais talento (para além de Rodrigo e Matic, que jogou até dezembro, Markovic e André Gomes, já para não falar dos defesas Garay e Siqueira muito dotados tecnicamente ), o que punha as outras equipas mais em sentido. 

O equilíbrio desta equipa terá pois que ser feito de outra forma. Estas semanas de interlúdio no campeonato serão pois úteis para trabalhar nalguns aspectos.

quarta-feira, 26 de março de 2014

A importância de um treinador



Continua a penosa época do Manchester United.

Depois de uma derrota clara com o Liverpool e de uma vitória com sorte sobre o Olympiakos, o United voltou ao "normal" desta época: uma equipa que joga com mentalidade de pequeno, sem fio de jogo, sem plano de jogo, sem organização sobre o terreno, com vários jogadores fora das suas posições. Em suma, um caos táctico. 

A vitória de ontem do seu grande rival City no seu campo (0-3) foi mais uma jornada duríssima para os adeptos do clube (para além de, mas isso é outro assunto, um mau resultado para o Chelsea de Mourinho). O resultado, que se começou a definir logo aos 43 segundos (!), poderia aliás ter sido muito mais expressivo se o City tivesse forçado as coisas. O mais espantoso (e desolador para os adeptos) é que em nenhum momento o United teve o domínio do jogo. Pelo contrário, mesmo a perder desde praticamente o apito inicial, a equipa da casa continuou a aceitar ser dominada e jogar em contra-ataque! É a mentalidade de um treinador de equipa pequena, totalmente desajustada ao Manchester United.

Para quem muitas vezes minoriza o papel dos treinadores, atribuindo o sucesso ou fracasso quase por inteiro à qualidade dos jogadores que formam os plantéis, está aqui um exemplo perfeito. Este United tem precisamente os mesmos jogadores da época passada, mais Felaini, um bom centro campista belga. No entanto, ao passo que na época passada foi campeão, este ano nem às competições europeias irá. A equipa desaprendeu completamente de jogar à bola.

A proverbial paciência dos ingleses para com os treinadores, no sentido de lhes dar tempo e condições de estabilidade, parece estar a esgotar-se. O problema não me parece ser o tempo, mas sim Moyes não saber o que está a fazer. A ideia de uma reconstrução do plantel parece-me ainda ser muito perigosa para o United. Estas "revoluções" não costumam dar o melhor resultado. O clube arrisca-se a destruir o pouco que resta da estrutura ganhadora do passado, em nome de uma pura incógnita. Se é verdade que o plantel precisa de uma certa renovação, Moyes não parece ser o homem ideal para a conduzir pois ainda não demonstrou competências básicas quanto mais para conduzir tarefa de tão elevado grau de responsabilidade. 

A incapacidade de Moyes é aliás tão evidente, tão flagrante que há até quem mantenha que Ferguson (senhor de um enorme ego) o escolheu precisamente para que falhasse e que o contraste com o seu legado fosse bem visível. A escolha de Mourinho teria sido a mais lógica e acertada, até porque o treinador português tinha admitido (ao arrepio do que tem sido a sua carreira) "assentar" e vislumbrar para o futuro uma estadia mais prolongada num clube, assim "piscando o olho" ao lugar. 

De acordo com a imprensa, os adeptos do United terão ontem manifestado a sua clara insatisfação, quer com Moyes quer com o próprio Ferguson. Cada vez menos parecem existir condições para a continuidade do escocês. Aliás o desastre mais que provável, eu diria mesmo inevitável, frente ao colosso de Munique, em eliminatória que se disputa nas próximas duas semanas, tornará na minha perspectiva o ambiente ainda mais insustentável.

A situação em Londres não é também a melhor. O maior clube da capital vai terminar mais uma época sem ganhar nada a não ser algumas muito cruéis lições futebolísticas. Wenger sairá, tudo o indica, de Inglaterra sem honra nem glória. Depois de sustentar polémicas e de manter uma postura muitas vezes arrogante, foi humilhado, passado a ferro, pelo Chelsea de Mourinho, que alcançou a sua maior goleada até ao momento sob o comando do treinador português.

"Levar" 6 a zero de um rival, já depois de derrotas também humilhantes com Liverpool e City, é algo que custa muito a engolir a um adepto. Wenger está a atingir o seu prazo de validade e já não parece ter ideias nem capacidade de adaptação à realidade do futebol moderno para poder ganhar seja o que for. As suas equipas denotam uma falta de agressividade que é gritante e a sua incapacidade em alterar seja o que for a partir do banco é por demais evidente. O fracasso de Wenger está-se a tornar cada vez mais um espectáculo público a que começa a ser penoso assistir. Ontem voltou a marcar passo (2-2 em casa contra o Cardiff que está em zona de despromoção) e pode ainda dar-se por satisfeito por uma escandalosa decisão do árbitro que acabou o jogo quando um jogador da equipa visitante corria isolado para a baliza do Arsenal.

Tal como defendi desde o início da Liga Inglesa, o City continua a ser o principal favorito à vitória. Tem o melhor plantel e tem um bom treinador. Mourinho conseguiu o que muitos consideravam impossível, que foi a liderança destacada (embora com maior número de jogos) mas a derrota com o Aston Villa poderá ter-lhe sido fatal. Aquilo que eu não previ e em relação ao que, com muita satisfação, dou a mão à palmatória, é a "candidatura" do Liverpool ao título. Sempre defendi que o Liverpool não tinha consistência para se manter na corrida até ao fim.



Felizmente porém - pois o seu futebol é o mais espectacular, o mais atacante e o mais entusiasmante - está a conseguir manter-se nos primeiros lugares e pode ainda aspirar a vencer a Liga, até porque receberá os outros dois candidatos. Mais uma vez, o treinador faz toda a diferença pois foi capaz de colocar os grandes jogadores que o Liverpool efectivamente tem a jogar como equipa e retirando de cada um deles o máximo rendimento.  

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Mourinho - grande mestre em xadrês




A exibição do Chelsea na passada segunda-feira em Manchester e a consequente vitória, que poderia ter sido mais dilatada, constituiu provavelmente a maior lição táctica que já vi no futebol.

O Manchester City estava numa forma impressionante, cilindrando adversário após adversário e contava por vitórias todos os jogos disputados em casa. Entre esses resultados contavam-se: 4 ao Newcastle, 4 ao United, 3 ao Everton, 6 ao Tottenham e mais 6 ao... Arsenal! Na jornada anterior, o City tinha ido a Londres "dar" mais 5 ao Tottenham ao passo que o Chelsea empatara em casa com o West Ham.

Antevia-se portanto um jogo muito difícil para o Chelsea e uma missão quase impossível para parar o ataque dos cidadãos e manter a melhor defesa da prova.

Antevi aqui uma táctica ultra-defensiva por parte de Mourinho, fechando todos os caminhos da sua área. No entanto não foi isso que aconteceu. Mourinho mostrou que realmente é único no panorama do actual futebol e montou uma estratégia que podemos catalogar de perfeita para este jogo.


Com efeito, o treinador português dispôs a sua equipa em campo como se fossem peças num xadrês, tirando e quase anulando a iniciativa do adversário e sendo capaz de jogar no respectivo meio campo, construindo bastante jogo e oportunidades de golo, quer em ataque organizado e sempre muito apoiado quer em contra-ataque. 


A sua equipa foi um modelo de equilíbrio e solidez que mereceu amplamente a vitória. Em raras ocasiões se terá visto uma influência tão directa e evidente de um treinador no desempenho da sua equipa e no desfecho do jogo. O City foi absolutamente impotente para vencer este Chelsea e se ainda teve oportunidades, no fim do jogo, para alcançar outro desfecho isso deveu-se apenas ao facto da sua equipa ter sido infeliz em várias ocasiões não conseguindo aumentar a vantagem como merecia. 

O Chelsea actou num 4-2-3-1, que tem sido o sistema predilecto de Mourinho no Chelsea, com David Luiz e Matic a fazerem uma "parede" às investidas do City e a impedirem o tal jogo "entre linhas" de que agora tanto se fala e no qual o City é fortíssimo. Os "carroceis" de Silva e do próprio Touré raramente aconteceram (quando o conseguiram criaram as poucas oportunidades de que dispuseram no jogo) e quando o Chelsea saia para o contra-golpe Hazard e William, apoiados por Ramirez, eram sempre setas apontadas à defesa adversária tal a sua velocidade e capacidade. 

É curioso como Mourinho adaptou David Luiz a esta posição com mais sucesso do que os seus antecessores. Como eu aqui disse há algum tempo, não é possível ter um jogador como David no banco durante muito tempo, não faz sentido, é um desperdício e acaba por ser insustentável. Mourinho aceitou por isso a "adaptação", tanta vezes criticada pelos analistas e adeptos, e os resultados estão a ser bons. 

Com esta táctica, Mourinho também consegue ter em campo vários centro campistas, vários jogadores que vão atrás da bola e lutam quando a sua equipa defende.


Para surpresa de alguns, mas não certamente dos benfiquistas, Matic foi o homem do jogo, apesar das excelentes exibições de Cahill, Terry, Hazard e Willian (já Ramirez pareceu-me com menos fôlego do que habitualmente). De facto o sérvio acabou por ser a peça chave do jogo, aparecendo nos espaços de Touré, no centro da sua área a defender, a sair com a bola e passá-la e até no ataque, nomeadamente com um pontapé portentoso que levou a bola ao poste. 


Foi o gigante a que estávamos habituados no Benfica.

Mestre da táctica, Mourinho é igualmente mestre no bluff e nos jogos psicológicos que são também importantes no xadrês para distrair e desorientar o oponente. Após o jogo afirmou que quem fizera a palestra fôra o massagista e continua a dizer que o Chelsea não é candidato ao título, apesar de estar em igualdade pontual com o 2º, que acabou de bater pela segunda vez esta época (na primeira teve sorte, há que o reconhecer) e a escassos 2 pontos do Arsenal, que esta jornada vai ao terreno do Liverpool. 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A fórmula Mourinho

Como se sabe, em Inglaterra o campeonato não pára na quadra natalícia, muito pelo contrário. Joga-se no boxing day e joga-se também no dia de ano novo. 
Precisamente dia 1 o  Chelsea venceu fora o Southampton (que chegou a ser a surpresa do início do campeonato) por 3-0 e conseguiu talvez a sua exibição mais conseguida da época. Mais uma vez Mourinho alicerçou a vitória da sua equipa na segurança defensiva e depois soube ter a arte de, no momento certo, usar as armas que tinha no banco e decidir a partida.
Mourinho procura (e esta característica foi muito bem observada por Norton de Matos que me parece o mais conhecedor e melhor comentador da Benfica TV) o equilíbrio nas suas equipas, usando os jogadores que melhor o podem assegurar em diferentes momentos do campeonato e dos próprios jogos. 
Contra o Southampton, foi clara a intenção de, na primeira parte, controlar e segurar o jogo, manietar o adversário controlando a bola e os espaços sem assumir riscos, para então na segunda parte lançar os jogadores de maior acutilância ofensiva e vencer a partida (Óscar e William por Mata e Shurer). Foi um pouco o que o Benfica fez em Setúbal e que foi bastante criticado pelos comentadores e pelos próprios adeptos, que ora se queixam por (no ano passado) jogarmos bem e não ganharmos nada como de ganharmos mas não jogarmos bem (este ano). 
A verdade é que um treinador vive de resultados, algo que constitui o cerne e a essência da "fórmula Mourinho" que não hesita em recorrer a tácticas ultra-defensivas e ao pontapé para a frente para o assegurar. (Recorde-se por exemplo a eliminação do Barcelona pelo Inter de Mourinho, na qual o 4-3-3 foi substituído por um insólito 7-3-0).
Isso porém é o extremo, pois Mourinho normalmente, até por treinar uma equipa de topo, assume mais as despesas do jogo. Mas não muito mais e nunca ao ponto de desgastar demasiado a sua equipa numa busca desenfreada do golo (algo que no passado aconteceu muitas vezes ao Benfica) ou de correr riscos defensivos para o conseguir. As mexidas de Mourinho na equipa são por regra conservadoras.
A "fórmula Mourinho" é de certo modo o ovo de Colombo: grande segurança defensiva, grande controlo do jogo e excelente ocupação dos espaços, grande equilíbrio da sua equipa e depois capacidade de mudar durante os jogos o que está menos bem na equipa. Mourinho tem a paciência de saber esperar pelo golo e pela vitória. Tem uma grande autoconfiança e consegue projectá-la para os seus jogadores. É um excelente líder de homens e, um pouco à semelhança de Jorge Jesus, consegue retirar o melhor dos jogadores, como é actualmente o exemplo de Hazard.
Por tudo isto, e por ter sabido escolher bem os clubes por onde passou, a fórmula Mourinho é altamente vencedora - mas não infalível.
Este ano, como já assinalei, Mourinho "arrisca" bastante em termos da sua reputação e da sua aura vencedora, pois o seu Chelsea não tem o melhor plantel de Inglaterra, ficando atrás do Manchester City. Por outro lado, o Arsenal apresenta também um bom futebol e tem-se conseguido manter na liderança do campeonato, algo que dá sempre muita força, confiança e alento aos respetivos atletas. No entanto, se quisermos ser objectivos, temos que reconhecer que se o Chelsea se mantém a apenas dois pontos da liderança com todas as possibilidades de poder vencer, deve-o sem dúvida a Mourinho, à sua veia competitiva e ao grande equilíbrio que confere às suas equipas e que as coloca mais perto de vencer.
Alguns treinadores dizem que "jogar bem" é meio caminho para vencer, mesmo quando as suas equipas perdem. Para Mourinho porém isso não existe. Se a sua equipa perde é porque jogou mal, porque jogar bem é jogar para vencer e não jogar bonito. Mourinho acredita, isso sim, que uma equipa bem montada, bem organizada, bem posicionada e, acima de tudo, muito bem equilibrada entre os diversos sectores, está mais perto de vencer do que uma outra que não tenha estas características.

A meu ver, Manchester City, Chelsea e Arsenal são neste momento e nesta ordem os principais candidatos ao título em Inglaterra. O Liverpool está a jogar bem mas os zero pontos nos dois jogos anteriores (City e Chelsea) demonstraram que lhe falta ainda alguma coisa para ser candidato. O United voltou a perder nesta jornada, agora com o Tottenham e está fora destas contas. O Everton por seu turno está a fazer uma excelente temporada mas não tem obviamente argumentos para enfrentar estes tubarões. 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Meio campo do Benfica 2013/14

Como já assinalei anteriormente, o meio-campo do Benfica tem, ao longo dos 4 anos de comando técnico de Jorge Jesus, passado por várias versões.
A primeira versão foi a única campeã. Eis abaixo a equipa tipo desse ano.

Benfica versão 2009/10. 



Foi um modelo único e irrepetível, pois dependia muito das características e da qualidade dos intervenientes: da velocidade de David Luis, da capacidade de cobertura, pressing e ocupação dos espaços defensivos de Javi Garcia, do pulmão e dos equilíbrios gerados por Ramirez.

Este Benfica era tão forte - e tão rápido - que o jogo praticamente não se desenrolava no meio-campo. O Benfica asfixiava os adversários e estava a maior parte do tempo a atacar. As outras equipas quase se remetiam à defesa e a contra-ataques esporádicos. 

No ano seguinte, 2010/2011, saíram Ramirez e Di Maria (tal como Quim, substituído por Roberto). O esquema táctico manteve-se, mas apenas no papel pois a dinâmica era completamente diferente. As asas do Benfica campeão, Di Maria e Ramirez, tinham sido substituídas por Gaitan e Sálvio. Ora apesar destes serem bons jogadores, as características não eram as mesmas. Por um lado Gaitan, apesar de toda a sua qualidade e das suas arrancadas, não tem a velocidade de Di Maria e a capacidade de dar "esticões" como o seu compatriota. Por outro lado, Sálvio não fazia os equilíbrios defensivos que Ramirez fazia pelo que Javi Garcia começou a estar demasiado exposto, com a consequência do Benfica não conseguir ser uma equipa tão pressionante. Daí o aparecimento de César Peixoto na equipa (o que manifestamente não constituía uma solução para o grau de exigência em causa). Juntando Roberto a este quadro, estava preparada a receita para o desastre que aconteceu nos jogos em que o Benfica enfrentou adversários fortes, sobretudo fora de casa.

No ano seguinte, Jesus foi buscar Witsel, que inicialmente foi apresentado como um médio ofensivo. Muitos de nós benfiquistas pensámos que tal contratação era algo estranha, pois tínhamos já Aimar e Bruno César para o lugar, e o próprio Gaitan podia desempenhar tais funções. 

A verdade porém é que Witsel não veio propriamente substituir Aimar mas sim o esquema de jogo do Benfica, apesar de Jorge Jesus ter na altura afirmado que nada se alterara, apenas os jogadores. A realidade é que o meio-campo do Benfica passou a ter dois homens - Javi e Witsel. Com um Saviola cada vez menos produtivo, Aimar surgiu algumas vezes no apoio ao ponta de lança, Cardozo. Mas houve alguns equívocos, como Jara e, na defesa, Emerson.

Do esquema de 2009/10, que se pode classificar coma uma variante do 4-4-2 "diamante" com Javi a assumir as tarefas defensivas e Aimar as ofensivas e Ramirez a fechar no meio quando a equipa perdia a bola, passou-se a um 4-4-2 de pendor ofensivo mais convencional com os dois jogadores do corredor central a jogarem mais perto um do outro.

Esse esquema dos dois homens no meio não se alterou substancialmente com a saída dos dois titulares, já com o campeonato deste ano a decorrer. Com efeito, Javi foi substituído por Matic e Witsel por Enzo Perez. Sendo Matic mais tecnicista que Javi e Enzo mais esforçado e de maior rotação que Witsel, o Benfica teve um meio campo mais dinâmico, em que os dois jogadores se complementaram bem e alternaram nas subidas ao meio campo contrário, ao passo que no esquema anterior Javi era mais fixo e Witsel mais um médio de construção/equilíbrios.

Chegados a este ponto, estamos perante a possibilidade de Matic, face à extraordinária época que realizou, vir a sair. Por outro lado, Djuricic já está contratado, o que à partida parece apontar para um esquema mais parecido com o do primeiro ano.

Nesse esquema, Matic poderia desempenhar a função que Javi Garcia ocupou em 2009/2010 - mas Enzo não. No esquema de um playmaker atrás de dois avançados puros, é necessário um trinco. Mas mesmo essa solução, se não existir um Ramirez, será certamente insuficiente para defrontar adversários mais poderosos que nos criam outro tipo de dificuldades em termos defensivos e de ocupação do meio campo, que não se colocam quando jogamos com a maioria das equipas do nosso campeonato. 

É que o sistema de 4-4-2 diamante, que parece reunir o melhor de dois mundos (dois pontas de lança, um criativo e um meio campo de 4), para funcionar precisa de jogadores nas alas que tenham a capacidade de defender e mesmo juntar ao meio (como fazia Ramirez) quando a equipa não tem a bola, abrindo pelo contrário bem nos flancos quando a equipa ataca. Nem Sálvio, nem Ola John têm estas características em termos defensivos. Gaitan é o único dos que jogam nas alas que pode dar um pouco disso ao Benfica mas é um jogador de muitos altos e baixos.

A alternativa seria um meio campo idêntico ao deste ano (um 4-4-2 mais clássico com dois jogadores no meio) e Djuricic a fazer a ligação com o ataque, como aconteceu nalguns jogos na época 2011/2012. Mas sem Cardozo na frente, um esquema desses parece pouco acutilante em termos ofensivos... Além disso, ele recorda-nos o demasiado inofensivo modelo de Quique Flores.

Por outro lado, não parece crível que JJ venha agora adoptar um sistema diferente, por exemplo um 4-3-3, apesar deste se poder adaptar bem às características dos sérvios já contratados e dos extremos que temos (Sálvio, Ola John e Gaitan, caso continue).  Jesus não quererá no quinto ano passar a um novo modelo que implique deixar de jogar com dois pontas de lança, algo que tem sido a sua imagem de marca desde que chegou ao Benfica.

Muitas dúvidas subsistem portanto em relação à forma como o meio campo do Benfica se disporá para o ano. Uma coisa me parece porém certa: face a tanta incerteza, a presença de Matic no plantel da próxima época seria uma garantia não apenas de estabilidade como de fiabilidade e consistência. Ela permitiria várias soluções, desde um mais arriscado sistema em que apenas ele e Djuricic assegurariam o meio campo até  uma mais conservadora em que ele e Enzo manteriam os seus lugares e Djuricic poderia alternar com um dos avançados, por forma a manter o sistema de 4-4-2. Teremos que esperar para ver, mas espero que estas questões estejam já relativamente delineadas na cabeça de Jesus e que se comecem rapidamente (para além da questão do lateral esquerdo) a encontrar soluções para os diversos cenários possíveis.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Treinadores e tácticas

Desde que Jorge Jesus chegou ao Benfica que jogamos com dois pontas de lança/avançados (Saviola é mais um segundo avançado do que um homem para jogar sozinho na frente).
O Benfica joga num 4-4-2 ofensivo, ou num 4-1-3-2. Digo isto sem pretensões de rigor excessivo.
O que eu quero dizer é que a equipa é por regra constituída por 4 defesas, um médio defensivo, um ofensivo, dois extremos e dois avançados. Os laterais são bastante ofensivos.
Por outro lado sei, porque o próprio já o disse explicitamente, que JJ compreende os riscos desta táctica mas que defende que a matriz ofensiva é congénita ao Benfica e que os adeptos desejam e exigem tal matriz, futebol atacante, golos e o espectáculo daí adveniente.
Aliás há uma coisa que os benfiquistas devem recordar para perceber melhor isto: no Belenenses, JJ era super defensivo e mesmo no Braga havia uma consistência defensiva grande. Jesus sempre se distinguiu (antes de chegar ao Benfica) por dar essa consistência e segurança às suas defesas. Cheguei a ver o Belenenses jogar em Munique contra o Bayern e perder por apenas 1-0.

Por outro lado, eu sempre achei que o 4-3-3 era um sistema mais seguro. O meio campo tem sempre 3 jogadores e quando a equipa defende pode ainda derivar os extremos para o centro do terreno fechando muito os espaços à equipa adversária. Por outro lado, nos desdobramentos ofensivos os médios aparecem muitas vezes no ataque confundindo a defesa que não sabe bem quem são os opositores directos. Por outro lado, o 4-3-3 permite uma coisa que os outros sistemas dificilmente conseguem: colocar 3 jogadores numa faixa, o lateral, o extremo ou ala e o interior. Numa época o Guimarães fez isto com muito sucesso com José Carlos, Paneira e Capucho.
Isto sou eu que observo e digo, na minha visão um pouco simplista, admito-o das tácticas.

Aqui há uns anos atrás deu ideia de que o chamado 4-4-2 em diamante era uma táctica ainda melhor, porque juntava o melhor de dois mundos: criatividade e vocação ofensiva (mantendo os dois pontas de lança) e um meio campo não já com 3 mas com 4 jogadores, conseguindo o aparentemente impossível: ter superioridade numérica no meio contra equipas que jogassem em 4-3-3. Parecia a quadratura do circulo.
Lembro-de de que por exemplo o Milão jogava nesse esquema, jogando com Gattuzo, Pirlo, Rui Costa e Seedorf.
A questão é que para poder jogar num tal sistema, sem que os jogadores se atropelem no meio campo e sem afunilar todo o jogo pelo meio, são necessários intérpretes de uma qualidade verdadeiramente excepcional.

O 4-3-3 acaba assim por ser um sistema mais simples de adoptar e com resultados semelhantes. É por isso o preferido da maioria dos treinadores e está implementado no Porto, por exemplo, há bastante tempo.

Como exemplo de um 4-4-2 mais conservador, ainda assim extremamente eficaz e incrivelmente ofensivo, temos o do Manchester United. É um sistema mais de duas décadas, que, se alguns especialistas tivessem razão deveria ser completamente previsível mas que continua a "dar" títulos.
Acontece porém que o 4-4-2 do Manchester é mais conservador do que o do Benfica no sentido dos dois jogadores do meio serem mais defensivos, ou de contenção como agora se diz, dos que o do Benfica. Acresce que nalguns jogos (foi o caso do último com o Liverpool), Fergusson optar por um sistema mais próximo de um 4-2-3-1.

Isto dá um pouco que pensar.

O que parece estar a acontecer com o Benfica é que contra as equipas pequenas o sistema está a funcionar muito bem mas em jogos mais difíceis ele está a emperrar. Contra o Porto a falta de controle do meio campo foi evidente. Aliás, há uma coisa em que JJ não aprendeu a lição do ano passado: a colocação de Lucho no jogo da época passada (muito avançado no terreno, a pressionar Javi Garcia) foi decisiva para emperrar o jogo do Benfica. Este ano aconteceu algo semelhante, com uma pressão intensa, mais em bloco, sobre os nossos defesas, que JJ não conseguiu contrariar durante toda a primeira parte. Aliás o erro duplo e indesculpável de Artur encontra ainda assim uma explicação nesse factor: muito pressionados e sem linhas de passe os nossos defesas viram-se muitas vezes obrigados a jogar para o guarda-redes. Isso criou um sentimento de grande insegurança desde o início e explica parte do "temor" que a equipa sentiu pelo adversário que pelo contrário era sempre muito confiante nas saídas da defesa, não temendo o 1 para 1 e conseguindo quase sempre o portador da bola ultrapassar (quase sem dificuldade) a nossa primeira linha de pressão.

O Benfica está neste momento a jogar sem nenhum "trinco" (o United joga com dois, embora obviamente eles tenham capacidade de passe e de sair com a bola) e apenas com um jogador mais vocacionado para tarefas defensivas. Mas há outro problema: é que com o quadro de jogadores que temos não se vislumbram muitas alternativas tácticas. Daquilo que se tem falado no Benfica é se devemos jogar com dois pontas de lança ou apenas com um. Mas se jogar apenas com um, a respetiva vaga não vai para um lugar no meio campo mas sim para um jogador de ligação meio-campo/ataque, como Aimar, Gaitan ou até, de certo modo, Rodrigo.

As alternativas seriam a meu ver os jovens Andrés. Ao lado de Matic eles podem eventualmente dar outra consistência ao meio campo que Perez nesta altura não parece garantir.

Enfim, são questões que JJ certamente estará a ponderar, até porque o jogo em Braga se aproxima e na segunda volta haverá um Porto-Benfica que poderá - aí sim - ser decisivo para a atribuição do título. Isto para já não falar da eliminatória contra o Bayer, equipa de alta rotação.
Uma última nota: a questão da renovação ou não de Jorge Jesus vai (penso) depender de como conseguir resolver esta questão e de ser capaz de vencer nos jogos mais importantes contra equipas da dimensão do Benfica. JJ conseguiu elevar o patamar de futebol do Benfica e o rendimento dos jogadores, daí resultando muito importantes vendas para os nossos cofres e uma consistente e sustentada luta pelo título. Mas em última análise o futebol são títulos e no Benfica isso é ainda mais evidente. Por outro lado, ainda que com todas as condicionantes conhecidas, os resultados com o Porto começam a ser curtos. Até por aí me parece que o jogo da segunda volta será decisivo. Tudo o que fique abaixo do título de Campeão esta época saberá a pouco e tornará a continuidade de JJ muito difícil.